O jogo de xadrez automotivo das antigas marcas contra os novos fabricantes chineses de automóveis, chegou num ponto crítico. Tenho convicção de que falta apenas um movimento para que se configurem duas possibilidades: ou ocorrerá um xeque-mate que imobilize a ofensiva asiática, estagnando as exportações automotivas da China para o mundo; ou acontecerá um entendimento das antigas montadoras de que é necessário enxugar os negócios, cortar custos de produção e diminuir os lucros por unidade vendida. Acredito mais nesse segundo panorama.
Veja um exemplo desse tipo de duelo. A gigante Volkswagen lançou a sua linha “ID” (de veículos 100% elétricos) entre 2019 e 2020. São ótimos carros com design cheio de personalidade, bom nível de tecnologia, mas não têm preços muito competitivos na Europa. Existem as famílias ID.3; 4; 5; 6 e agora a VW vai lançar o ID.2 e o ID.1. Este último, um bonito compacto 100% elétrico com espaço para quatro pessoas e autonomia média de 250 km com uma carga completa. Ele custará (lá na Alemanha) cerca de 20.000 Euros, o que equivale a pouco mais de R$ 122.000.
O ID.1 já foi apresentado, mas somente entrará em linha de produção em 2027. Em dias atuais (aonde aquilo que parecia moderno, num piscar de olhos se torna obsoleto) o espaço entre a data de hoje e dois anos diante é uma lacuna colossal de tempo. Nesse mesmo período os chineses já terão contra-atacado com algum novo produto; bom e com preço acessível, disponível em importantes mercados como o Brasil, Índia, China e Japão.
Todas as grandes montadoras parecem ter sido pegas de surpresa. Não imaginavam que a China pudesse atingir um patamar de qualidade construtiva tão alto como já conseguiram. Sugiro que você pesquise no YouTube sobre um carro chinês chamado NIO ET9. É um SUV elétrico com um sistema de suspensão impressionantemente eficaz. E na prática, vá até uma revenda de carros chineses no Brasil e observe o interior, o nível de acabamento e o pacote tecnológico dos veículos. Depois, compare os preços com produtos (quase) similares vendidos aqui no mercado nacional. O resultado mostrará opções jurássicas contra o futuro do presente já à disposição, com valores mais baixos e garantias mais extensas. É por isso que consumidores conservadores estão abandonando marcas famosas e migrando para algum fabricante chinês, sem a menor preocupação.
Não é possível entender plenamente a política de preços de veículos chineses exportados para o mundo inteiro; mas é óbvio que há uma participação estatal daquele governo que mistura a pujança corporativa somente viável pelo capitalismo, com a mão de ferro da disciplina e ordem, somente possível em regimes totalitários. E o objetivo deles parece ser bem claro: brigar até o fim, até a conquista majoritária dos mercados, mesmo com incidências gritantes de tarifas de importação e lutas de entidades do segmento automotivo em tribunais mundo afora.
O jogo esquentou e os próximos cinco anos serão definidores para entendermos quem resistiu, quem cresceu e quem encolheu nesse intrincado tabuleiro de guerra. A perspectiva será cada vez mais difícil para as marcas tradicionais que não conseguiram acompanhar os avanços tecnológicos e já estão com portfólios antiquados. (Imagem: Microsoft Designer Creator IA / Instagram: @acelerandoporai.com.br)