Há exatos 30 anos, a Ford enviava uma carta aos distribuidores anunciando o fim da fabricação do luxuoso Galaxie

O tempo passa e a tecnologia avança, principalmente, rumo à economia de combustível e segurança, mas, no quesito conforto, provavelmente o mercado nacional jamais terá um substituto para o imponente Galaxie, modelo de grande porte e alto luxo comercializado pela Ford entre 1966 e 1983 no país.

Gigante por fora e por dentro >> Dono de um grandioso porte (5,3 m de comprimento, 2m de largura e 3,02 m de distância entre os eixos) o primeiro Galaxie surgido no Brasil foi o “500”, praticamente o mesmo automóvel que já era fabricado nos Estados Unidos desde 1959. Por lá, o Galaxie saiu em diversas versões, incluindo um conversível, um sedã de duas portas e uma enorme SW (station wagon). Nos EUA a variedade de motores dos primeiros Galaxies começava num 6 cilindros (3.6) e terminava num V8 (4.8 litros), chegando a uma potência máxima de 300 hp. As alterações ocorridas em 1965 culminariam na base que a Ford usaria para fabricar o primeiro Galaxie por aqui.

O Galaxie nacional >> Apresentado cheio de pompa no 5º Salão do Automóvel de São Paulo (em 1966), ele somente começou a ser produzido em 16 de fevereiro de 1967. Caracterizado por uma suspensão extremamente macia, baixos níveis de ruído e por um acabamento diferenciado, o Galaxie chamou atenção e caiu nas graças do povo, no entanto, uma parcela muito pequena da população tinha condições de comprar o veículo glamouroso, dado o alto preço da máquina.

Espaço para seis pessoas >> Com um interior enorme, o Galaxie comportava até seis pessoas em dois bancos inteiriços; e um dos charmes mais marcantes desse carro era o seu painel com velocímetro exposto numa escala horizontal, ambientada por um volante fininho e uma inesquecível alavanca de câmbio cromada para acionar o câmbio de três marchas. Em versões mais luxuosas como a LTD, LTD-Landau (que a partir de 1976 passou a ser somente “Landau”), ele também ganhou opção de transmissão automática.

Evolução e começo do fim >> Nos anos ´70 e início dos ´80, o Galaxie competiu com Dodge Dart, Ford Maverick e Chevrolet Opala, mas, apesar de outras características positivas desses concorrentes, esse luxuoso Ford sempre pairou acima pelo nível de conforto absolutamente superior, firmando-se como veículo oficial de muitos chefes de Estado, incluindo a Presidência da República.

Com a segunda fase da famosa “Crise do petróleo” (1973), que fez o preço do barril aumentar em até 1000%, modelos com enormes motores V8, caso do Galaxie, por uma necessidade de mercado, começaram a cair em desuso. O fim dos anos ´70 marcou a chegada do motor “canadense” 302 (em alusão à importação do mesmo desse país) e, desde o término da década de ´60 já havia a versão mais requintada “LTD” (uma abreviação de Limited), que vinha com teto de vinil, grade, faróis, frisos, dentre outros itens com acabamento diferenciado, com destaque para o espelhinho de cortesia no pára-sol do lado direito e apoio central de braço no banco traseiro. Nessa época o motor V8 desse adorável gigante desenvolvia potência de 190 cv e torque de 37 kgf.m, números suficientes para deslocar a enorme carroceria com notável conforto e com um consumo enorme entre (médios) 3,5 e 5,5 km/l.

Landau, o último moicano >> Com um vidro traseiro menor (para deixar a cabine mais discreta para os ocupantes traseiros), o Landau foi o último dos Galaxies nacionais. Como dito, bastante utilizado por famílias abastadas, funcionários de alto escalão do Estado e empresários bem sucedidos, esse modelo foi fabricado até 1983. Muito bem acabado para os padrões da época, vinha com ótimos tecidos nos bancos, carpete de larga espessura e forros de porta dividindo plástico de boa qualidade com tecido, idem. O ar-condicionado, em outras fases, posicionado externamente, agora vinha embutido no painel e o sistema de som, um modesto rádio “toca-fitas” Philco-Ford distribuía o áudio em 4 alto-falantes. Um detalhe para não esquecer era a levíssima direção hidráulica do Landau, que demandava mínimo esforço para ser movida.

Fim de ciclo >> Por contingência do alto preço da gasolina e da necessária adaptação dos modelos ao mercado da época, finalmente em 2 de abril de 1983, após quase 80 mil unidades fabricadas, o carro dos sonhos dos brasileiros chegava ao fim de sua produção. A notícia havia sido anunciada oficialmente pela Ford do Brasil aos seus revendedores 4 meses antes. Exatamente em 14 de janeiro de 1983, com uma carta (melancólica para muitos), o Galaxie saía de linha. Era o fim de uma era de luxo, requinte e sofisticação, jamais repetida por outra marca no Brasil.

Apaixonados pelo Galaxie >> Luiz Duarte, Paulo Martins de Oliveira e Emerson Tenório Cannecchia, são os proprietários dos Ford Galaxie que você vê nessa matéria. Ambos, separados por faixas etárias bem distintas, mantém uma paixão em comum pelo Ford de proporções avantajadas. Nas fotos você vê um Landau cinza com câmbio manual, outro Landau automático Azul Clássico e mais um LTD automático pintado na rara cor Marrom Lontra. Os três exemplares estão mantidos em estado de originalidade e, apesar de nenhum deles encontrar-se em nível imaculado de conservação, trazem aquilo que colecionadores ingleses e argentinos, por exemplo, valorizam e consideram como um tesouro: a pátina do tempo ou o que poderíamos chamar de cicatrizes das estradas. “O Galaxie é um carro espetacular, com requintes que nenhum outro veículo moderno traz. O charme é um deles. Meu Landau é uma página viva da história”, comenta o médico Luiz Duarte, também artesão e construtor de incríveis miniaturas, dentre elas a linha completa do Galaxie no mercado nacional. “Comprei o meu LTD para fazer dele um hobby. Além disso, é meu laboratório de mecânica, uma boa dor de cabeça nos fins de semana…”, brinca o Engº Mecânico Emerson Tenório.

Jovem de apenas 22 anos de idade, Paulo Martins é um entusiasta no tema. Recentemente adquiriu um bonito Landau cinza, comprado em Brasília e, apesar de alguns esforços para colocá-lo com a mecânica em dia, está satisfeito e curtindo o adorável beberrão da Ford. “Já fiz uma viagem com ele até São Miguel dos Campos e a diversão foi grande! Adoro carros com motores V8 e o Galaxie é o melhor nesse estilo já feito no Brasil”, destaca Paulo, que, de tão interessado no tema é capaz de citar as cores, versões, números de exemplares fabricados, entre outros dados garimpados em literatura na época. O bom da história toda é que, tal qual Elvis Presley, o Galaxie não morreu e permanece aceso na vida de muitos fãs, inclusive eu que estou em busca de um por aí. I FA
VEJA ABAIXO A FICHA TÉCNICA DO GALAXIE:
Motor: longitudinal Ford V8 (8 cilindros dispostos em “V”); 16 válvulas (2 por cilindro)
Cilindrada: 4.785 cm³ ou 4.952 cm³ (versão 5.0)
Taxa de compressão: 7,7:1
Potência máxima bruta: 190 / 199 cv
Torque máximo bruto: 39,8 Kgf.m
Alimentação: carburador DFV de corpo duplo
Câmbio: manual ou automático de 3 velocidades
Tração: traseira
Freios: traseiros a tambor e dianteiros a disco
Direção: hidráulica
Comprimento: 5,33 m
Entreeixos: 3,02 m
Peso: 1.780 kg
Desempenho: velocidade máxima: 170 km/h
Aceleração de 0 a 100 km/h: 13 segundos
Capacidade do tanque: 107 litros






