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Não seja tão bonzinho no trânsito: você pode ser machucar

Provavelmente, o maior erro que um país pode fazer com a qualidade do seu trânsito é o aprendizado tardio das pessoas que algum dia estarão ao comando de um volante. Minha opinião é que deveria ser obrigatório desde muito cedo (10 anos, talvez), o contato e o manejo das crianças com algum veículo motorizado, evidentemente, de pequeno porte e num ambiente fechado, como um autódromo. Isso evitaria medo e insegurança, muito comum em adultos motoristas. Por experiência própria, no meu contexto de vida, todos os meus amigos – sem exceção – que chegaram tarde ao contato com um carro, são, em algum aspecto, mais desatentos e inábeis, verdadeiros “barbeiros” na condução de um automóvel, condição que se traduz diretamente no aumento do perigo no trânsito.

O ato de ´dirigir bem´ e com atenção, visa não somente olhar para a frente, e sim, de vez em quando, em intervalos curtos, ficar atento aos três espelhos retrovisores, mantendo-se ligado naquilo que nossa acuidade visual permita observar nesse outro ângulo. À frente ou atrás, tudo o que se passa é importante. Por exemplo: um cachorro que ameaça atravessar uma avenida e, no meio do percurso, desiste e volta à mesma calçada, é suficiente para derrubar um motoqueiro, que por sua vez – involuntariamente – vai mudar de faixa atropelando ou batendo no carro de alguém. Acidentes não avisam o momento do impacto: simplesmente acontecem em frações de segundos e… já era. O que poderia ter sido evitado, já é um problema estabelecido. Do mesmo modo que um cão sem dono; um ciclista na contramão, uma velhinha andando lentamente, uma carroça sem sinalização ou até o reflexo do vidro no carro à sua frente, representam coisas que geralmente não entendemos como parte integrante do trânsito, mas que, de fato, o são.

Barulho em excesso >> Nos últimos anos, Maceió sofreu duas notáveis mudanças no comportamento do seu trânsito: a primeira é o número absurdo de motoqueiros desprovidos de equipamentos de segurança e com os veículos adulterados confrontando a Lei. Refiro-me, especialmente, aos canos de escapamento abertos que cospem muito mais decibéis do que os nossos surrados ouvidos podem suportar. Já falei mil vezes por aqui: motoqueiro que pilota descalço, cai e perde um pé, torna-se inválido ainda jovem e se constitui em mais um peso que nós, os pagadores de impostos, teremos que sustentar via o inchado INSS. Se o código de trânsito brasileiro é falho (não prevendo punição a quem dirige sem calçados e deixando nublados tantos outros temas que nos afetam), que se crie então uma legislação específica no estranho território alagoano.

Boa ação? >> Outro comportamento que está se tornando perigoso – apesar de parecer e, talvez, até ser um ato de camaradagem da maioria de quem o pratica – é a nova mania de, ao menor sinal de um pedestre querer atravessar uma via, freia-se o veículo em qualquer lugar (principalmente fora da faixa) sem a menor noção do que se pode causar na parte de trás do cenário. Na última terça-feira (dia 19, aproximadamente ao meio dia) em frente ao antigo Hotel Meliá, uma moça brecou de vez um Kia Picanto (prata) na minha frente. Fui pego de surpresa, mas consegui parar. Ao nosso lado, a turista que ali estava querendo atravessar a rua, somente não morreu atropelada pelo carro que vinha imediatamente ao meu lado, por obra de um anjo da guarda muito eficaz, pois a morte raspou na moça por uns 30 centímetros…

A atitude de parar e ligar o alerta para dar passagem a alguém é até bonita. Só um idiota não reconhece isso. Só que essa ação tem que ser acompanhada e prevista e bem pensada lá de longe, verificando em primeiro plano os retrovisores, para ver se não há risco de colisão traseira, do contrário, o que seria uma boa ação pode se transformar num pesadelo para o resto da vida. Nem todos os carros da frota nacional são equipados com o sistema ABS, que possibilita uma frenagem sem o travamento das rodas. Desse modo, o carro da frente que parou de repente para realizar a “boa ação”, até o fará em segurança, mas o que é surpreendido (e que não tenha freios ABS) poderá – sem querer – causar um estrago enorme.

No contexto de trânsito, onde temos que nos entender como pequenas bóias a circular entre canos d´água, sempre reconhecendo a fragilidade que se traduz na mobilidade de um veículo, é muito mais fácil – e menos perigoso – que uma pessoa na calçada espere um pouquinho e atravesse com calma, do que se imobilizar um automóvel (geralmente com mais de 1 tonelada) envolvendo-o num acidente, seja ele de qualquer proporção. Portanto, ser bonzinho demais no trânsito pode ser uma questão de vida ou morte. Morte inclusive para você. (Fábio Amorim / Foto: Ricardo Lêdo)