No emblemático 13 de maio (Dia da Abolição da Escravatura), também comemora-se o Dia do Automóvel. O que podemos celebrar sobre essa invenção que mudou o mundo? Parte da evolução humana só se deu a partir do momento em que a mobilidade sobre rodas começou a tomar corpo. Atualmente, aqui no Brasil, presenciamos a luta da indústria em ampliar a sua capacidade produtiva versus o caos cotidiano causado tanto pelo excesso de veículos nas ruas, como pela deficiência dos transportes coletivos.
Carros e pessoas ao volante: esses são os temas que mais lidei nos últimos 15 anos por causa da minha profissão. Já perdi as contas de quantos veículos testei e outras tantas palestras sobre automóveis e comportamento ao dirigir que assisti. Em várias delas, a conclusão – após discussões que visavam entender a violência e outros problemas de mobilidade urbana –, recaía sobre a falta de educação, o egoísmo ou, simplesmente, a uma brutal falta de solidariedade. Cá entre nós: quantas vezes você teve paciência suficiente para ceder aqueles poucos segundos que facilitariam a vida do outro motorista? Se cada um dedicasse um pouco de gentileza em prol da coletividade, o trânsito seria melhor, mas parece que a combinação do estresse com a falta de modos desperta o lobo cruel que, no fundo, existe em cada ser humano. Daí, temos que conviver com os que não cedem a vez, com os desatentos que se mantém do lado esquerdo da via atrasando o fluxo ou, pior: com os ´donos do pedaço´, os egocêntricos que pairam acima da lei e, pela força bruta, querem impor as suas vontades.

Pensando sobre isso voltei à infância, tempo onde nutri uma paixão pelo judô, a arte marcial que quer dizer “caminho da suavidade”. No judô nem sempre se vence pela força. Às vezes, quando o lutador cede um pouquinho, ele aproveita a própria energia do oponente que o fará, inesperadamente, cair como perdedor. O trânsito é mais ou menos isso: um embate motorizado onde há estratégias maliciosas para se levar vantagem, pouca cessão de espaço e golpes prestes a serem desferidos, tudo culminando numa insana competição que não tem pódio nem troféus. Há de se ter cuidado, pois, muitas vezes, a perda da paciência leva à fúria que pode se consumar em atos de violências fatais. Atire a primeira chave de roda quem nunca se encontrou naquela fronteira entre a insanidade e a vontade de matar no trânsito! Poucos podem levantar a mão, porque pouquíssimos dirigem pensando no bem estar alheio.

Como dito, estamos vivendo aqui no Brasil (e em outros grandes e muito mais ricos e bem educados países) um momento delicado entre o crescimento da indústria dos automóveis e as reais necessidades de locomoção. Cidades que não se adaptam ao crescimento e ruas que não têm mais para onde se expandir, clareiam o panorama de desequilíbrio com provas concretas de que estamos no caminho errado nesse convívio entre pessoas e máquinas. Várias metrópoles riquíssimas têm gasto bilhões em tentativas de soluções que visam desafogar o trânsito, no entanto, aquilo que parecia um acerto infalível de engenharia, em pouco tempo (e após muito dinheiro público empregado) já se mostra ineficaz, simplesmente porque os municípios não conseguem se adaptar com rapidez ao despejo de novos carros no seu espaço físico.

Ter um transporte próprio é muito bom. A maioria quer e quem trabalha por isso, merece, mas creio que chegou a hora de a indústria repensar o seu importante papel nesse contexto. Se quiserem ser manter vivos, com bons lucros e – amigos da população –, os fabricantes de veículos deverão começar a focar atenções nos microcarros, a trabalhar em parceria com o Governo e incentivar a compra de automóveis híbridos, aqueles que dividem a propulsão entre um combustível líquido com a eletricidade vinda das baterias, pois poluem menos. Antes de tudo isso, o investimento sério e maciço nos transportes públicos é fundamental para o bem estar da maioria. E a multibilionária indústria automotiva tem amplas condições de se integrar com mais competência nessa engrenagem enferrujada para tentar ajudar e devolver uma parcela daquilo que vem ganhando há mais de um século.

Vou encerrar desejando que você, caro(a) leitor(a) e motorista, pelo bem de todos, tenha mais calma ao volante, respire fundo antes de tomar uma atitude e ceda um pouquinho para deixar o trânsito fluir. Eu sei que é difícil, pois há energúmenos que avançam sinais vermelhos, buzinam desnecessariamente, furam filas e estacionam enviesados tomando duas vagas ao invés de uma… Haja paciência!

Veja que bonito esse ensinamento de Jigoro Kano, o pai do judô. Espero que esse mestre que muita coisa boa plantou na Terra, te convença a ser mais comedido. “A meta final do Judô Kodokan é o aperfeiçoamento do indivíduo por si mesmo, desenvolvendo um espírito que deve buscar a verdade através de esforço constante e da sua total abnegação, para contribuir na prosperidade e no bem estar da raça humana. Nada sob o céu é mais importante que a educação. Os ensinamentos de uma pessoa virtuosa podem influenciar uma multidão. Aquilo que foi bem aprendido por uma geração pode ser transmitido a outras cem”. (Fotos: divulgação)






