Chamam Gravatá, o intrépido interior pernambucano, de “Suíça do Agreste”. À noite sopra aquele ventinho frio, coisa chique que combina com vinho e namoro debaixo dos cobertores. Por isso, o apelido. Eu gosto daquele lugar por dois motivos especiais: a beleza das montanhas de pedra que emolduram os campos e a simpatia das pessoas por carros antigos.


Tradição >> Ali se realiza anualmente (desde 2004) o ´Encontro Pernambucano de Veículos Antigos´, mais conhecido como “Encontro de Gravatá”. O evento, sempre organizado pelo CAAPE (Clube de Automóveis Antigos de Pernambuco) todas as vezes oferece um rico acervo local, engrandecido por diversos veículos antigos de outros colecionadores, geralmente nordestinos. Já vi de tudo por aquelas bandas: de Porsches a tanques de guerra que chegaram ao local fazendo o chão tremer!


Lente de aumento >> Para ser degustado com maior prazer, o Encontro de Gravatá precisa ser cuidadosamente garimpado. É evento compacto, com alas pouco definidas que, por fim, fazem uma salada interessante. Clássicos norte-americanos às vezes avizinham-se com carros nacionais comuns, como o Chevrolet Opala, por exemplo. Mas isso não tira o brilho da festa. Na minha opinião, essa disposição mesclada serve como um bom exercício de comparação de estilos, avaliações de épocas distintas e de sonhos diferentes.


Surpresas >> Certa vez encontrei por lá um “Fusca Pé de Boi”, versão simplista de fábrica em estado quase imaculado. Uma coisa linda! Marronzinho claro com interior da mesma cor da carroceria. Também já interagi com um “Uirapuru”, o famoso Brasinca 4200 GT. Foi em Gravatá que vi o primeiro exemplar do Uirapuru “carroalmente” (pra não dizer ´pessoalmente…´). Já encontrei nesse doce recanto pernambucano, clássicos raríssimos em todas as edições do evento. Cito abaixo, três que estavam lá neste final de semana (15 e 16/10).


Peças raras >> Do colecionador Mário Leão, havia dois clássicos do tipo ´mosca branca´: o primeiro, um Delage D6-70 de 1938. Esse carro francês, com seu curioso câmbio epicíclico helicoidal, é exemplar único na América do Sul (e estava lá à disposição para compor uma foto contigo).


O outro belo carro de Mário Leão (que inclusive ganhou o troféu “Best of Show”, como o melhor veículo da exposição de Gravatá em 2016) foi o Mercury coupé 1939. A particularidade desse clássico norte-americano com motor V8 é o fato dele possuir uma raríssima carroceria de duas portas.


Mais um estranho no ninho >> Outra máquina bem rara foi um “Ford A” de 1939 com carroceria cupê de duas portas e cinco janelas de vidro. Apesar de pertencer a uma família bem comum em praticamente todas as exposições de antigos do mundo, este ´Fordinho A´ do colecionador Luiz Antônio Kotkievicz, é muito raro.

Nunca vi modelos iguais a esses três, especialmente citados, nem na Autoclasica (melhor exposição da Argentina), Brasil Classic Show, o Encontro de Araxá (melhor do país) ou mesmo no famoso “Pebble Beach Concours D´Elegance”, o mais refinado evento desse ramo no mundo.


Outra curiosidade >> Dentre os quatro ´Fords A´ expostos (três conversíveis e um cupê), um deles tinha um detalhe precioso, raro e praticamente imperceptível: o chamado “eixo sulista”, usualmente só encontrado no sul dos Estados Unidos nos anos ´30 e que caracteriza-se por ter um eixo com uma bitola cerca de 2 polegadas mais larga do que 99,9% do restante da linha. Só em Gravatá mesmo pra ocorrer essas coisas…


Enfim… >> Se você nunca foi, mas gosta de antigomobilismo, vá no ano que vem pra respirar a pátina do tempo e mostrar aos mais jovens como eram lindos, coloridos e cheios de detalhes os carros de antigamente. Isso não é papo do tipo ´teia de aranha´ e sim, coisa ligada à preservação histórica.


Passo uma boa dica: vá uns dois dias antes, pois Gravatá tem ótima gastronomia, hotéis-fazenda bem equipados e um povo que sabe receber bem. No centro da cidade há o “Museu Sonho de Criança”, com grande acervo de carros antigos e até locomotiva e tanques de guerra. Ver carros antigos de perto, significa resgatar os bons tempos, matando aquela saudade que nos lembra que viver sempre vale à pena… (Fotos e texto: Fábio Amorim / Permitida a reprodução gratuita de texto e fotos, desta matéria, desde que as fontes – autor e site – sejam citadas)













