
Canadá, Estados Unidos, México, Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Equador, Peru, Chile, Venezuela, Colômbia, Argentina e Brasil. Esse foi o roteiro enfrentado pelo canadense William Daniel Walker, de 70 anos, ao lado de sua esposa Marilynn, companheira de viagem que não esquenta a cuca quando o assunto é acompanhar o marido em algumas aventuras um tanto ousadas.
No dia 1º de janeiro deste ano, o casal começou a jornada que teve a organização iniciada em 2008. Daniel Walker é um administrador de empresas e fortunas pessoais. No início dos anos 90 decidiu (quase) se aposentar, diminuindo o ritmo de trabalho. Mudou-se então para a Costa Rica e lá foi desfrutar dos encantos daquele paraíso tropical. Inquieto por natureza, “Mr.Walker” tem a sede por andar e percorrer o mundo até no próprio sobrenome. Segundo os seus diários de viagens (que escreve há muito tempo) faltam apenas poucas ilhas para que se complete um currículo invejável para quem gosta do tema: ele conhece o Planeta Terra inteiro! Até aqui, tudo bem… porque existem vários seres humanos que já fizeram essa (ótima) proeza. A diferença é que o pacato cidadão gosta de andar de carro. E não se trata de um automóvel comum. Aquilo que seria peça de coleção ou artigo cobiçado em qualquer museu, um belo Rolls Royce “Silver Cloud 1”, de 1957, é para ele um meio de transporte bem comum. “Um carro como outro qualquer e que deve ser usado!”, comenta, sorrindo, o viajante.
De carro por aí!
No início de 1994, investindo cerca de 100 mil dólares para realizar um sonho, Daniel Walker conta que após restaurar completamente o seu Rolls-Royce, decidiu colocá-lo à prova. Numa arremetida de mais de 50 mil quilômetros, encarou uma viagem com roteiro ´literal´ de volta ao mundo. Partindo de Victoria, no Canadá, a dupla desceu a costa oeste norte-americana dirigindo-se ao leste dos Estados Unidos. Descansando num navio, o velho Rolls 57 cruzou o Atlântico em alguns dias. Após atravessar o oceano, a odisséia continuou pela Espanha, Itália, Turquia, Alemanha, França, Inglaterra e Polônia. Não satisfeito com esse lindo pedaço da Europa, Daniel e sua esposa foram novamente a leste. Passando próximo ao Casaquistão, o carrão encarou a gélida Rússia, cruzou a Mongólia descendo pelo continente chinês até chegar ao ponto final (por terra) da viagem: a imponente cidade de Xangai. Isso mesmo: esse senhor sorridente e destemido já foi até a China de carro!
Figura rara
Sem muitos medos dos imprevistos ou preocupações com grandes planejamentos, Walker transparece ser um sujeito de alma leve e que está sempre a fim de conhecer algum novo lugar. O contato com ele foi uma aula de como não se apegar muito às coisas materiais. Ao contrário dos impecáveis (limpos e perfeitamente conservados) automóveis que vi dessa marca, este Rolls-Royce Silver Cloud 1 (chassi SED 445, ano 1957) parecia ter alma, vida própria. A pintura “saia e blusa” bege e marrom na capota (única no mundo, pois não é combinação original) ficou das mais interessantes e adequadas ao modelo, que, por sinal, é idêntico aos Bentley´s S1 de 1956, com exceção da grade. Com a carroceria suja (e com pequenos amassões), motor descascado (mas em inteira ordem, apesar dos 400 mil quilômetros rodados!) e com resquícios da areia do Deserto do Atacama, esse Rolls é o carimbo exato da pátina do tempo, do real (e bom) uso de um objeto de altíssima qualidade.
Questionado sobre sua curiosidade inquieta, ele falou: “Gosto de ver o mundo, conhecer novas pessoas, entender e apreciar algumas culturas. Isso é algo fantástico!” Apesar de alguns contratempos, o velho Rolls Royce jamais o deixou na estrada: “Comparo esse carro a um cavalo selvagem. Já chegou em alguns destinos quase quebrado, mas jamais me deixou em apuros numa pista”, disse. Desapegado aos detalhes perfeccionistas, Walker empurra as coisas na (enorme) mala do carrão e segue absorvendo novas perspectivas. “Certa vez, no Atacama, tive algum receio de continuar, mas tudo correu bem. Noutra ocasião passei no centro de uma revolução armada na África, mas tudo foi bem outra vez. Brinquei com garotos de 13, 14 anos, afastando os canos de suas armas com a mão. Eles riram e me deixaram passar!”, conta. Em outra situação, teve que aguardar a “boa vontade” da alfândega do Equador, que demorou 15 dias para liberar o seu automóvel… Com milhas e milhas de experiência, Walker reclama: “O Brasil atualmente é um dos lugares mais caros do mundo. Fiquei impressionado com alto preço da gasolina daqui”.
Mora na filosofia
“O mundo é lindo e acho que não há limites para se viajar. É meio como um vício, uma droga que não se consegue parar. Pelos caminhos vi tantas religiões que acho que já criei um amálgama de todas elas. Acredito em Deus e sei que as viagens não têm fim…”, conclui filosoficamente, Daniel Walker. I FA
AGRADECIMENTO: Ao amigo Mário Leão, colecionador e antigomobilista, que ajudou nessa pauta.
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