buru-rodas

Carros que não quebram mais e “mecânicos-raiz” em extinção…

Por causa de automóveis temperamentais, que às vezes decidiam não funcionar mais, seja por uma ´gripe´ pega em dias chuvosos ou por causa de um distribuidor folgado que tirava o motor do tempo, eu conheci algumas figuraças do ´lado B´ do segmento automotivo: me tornei amigo do Lêu, do Antônio Bispo, Careca, Ugo, ´Seu´ Raul, Moacyr eletricista, Mestre Plínio e, principalmente, do bem humorado ´Seu´ Adalberon. E também cheguei a conviver com os badalados Pêu, Mestre Álvaro e ´Seu´ Wanderley. Além deles, ouvi falar de tantos outros bons mecânicos, homens anônimos e competentes que fizeram história em suas oficinas em Maceió, capital alagoana. Sempre tinha alguém especializado em coxins, parte elétrica, freios, caixa de câmbio, lanternagem etc.

Em momento de profundo saudosismo, digo que sinto saudade daquela época diferente, dos serviços pagos em ´30/60/90 dias´ com cheques pré-datados ou, na maioria das vezes, com as faturas em aberto, acertadas no ´fio do bigode´, sem assinaturas ou promissórias. A conta somente era liquidada dentro do prazo estipulado no contrato da mais pura amizade.

Mecânicos que tiravam leite de pedra, eram aqueles dos anos ´70 e ´80. Aplausos para os heróis que faziam milagre apenas com um alicate e uma chave de 13 milímetros! Aprendiam na raça a lidar com problemas inéditos e mexiam em tudo, desde um motor marítimo, passando pelos tratores e caminhões a óleo diesel, chegando aos carros de passeio com esquemas técnicos mais simples, geridos por carburadores e com cabos de vela que mais se pareciam com tentáculos de um polvo!

Me lembro de mecânicos desdentados e com cigarros presos no canto da boca. Homens brutos com as mãos e unhas lotadas de graxa, a barba por fazer, macacões rasgados e com palavrões recorrentes como o idioma próprio e mais ininteligível do planeta! Me recordo de ambientes com enormes calendários pendurados nas paredes exibindo belas mulheres. Naquela época, uma borracharia, oficina ou mesmo uma retífica bem reconhecida que não tivesse calendários com lindas moças de batom vermelho e vestimentas mínimas, não era considerada uma oficina de verdade. Época machista em excesso, sem dúvida, com poucas mulheres atuando no ramo automotivo, bem diferente da atualidade, já que muitas beldades hoje em dia floreiam os ambientes de oficinas e concessionárias com o seu charme, beleza e, principalmente, competência.

Como dizem na gíria: “o sistema era bruto!” O encantamento pelo universo automotivo, associado à curiosidade juvenil, me fez frequentar todas as oficinas que pude. Vi caminhões “Fênemê” com motores abertos e totalmente lambuzados em óleo, pude presenciar os ajustes e o funcionamento perfeito de um propulsor de 6 cilindros da Mercedes-Benz SL-280, testemunhei diversas ´broncas´ em caixas de marchas, serem resolvidas de olhos fechados… A velocidade dos serviços das oficinas era diretamente proporcional à necessidade de colocar comida no prato da família. Sim, eu vi motores de Fusca berrando forte, com cabeçotes retrabalhados, taxas de compressão modificadas, tudo em nome de um pouco mais de performance. As preparações eram feitas no ouvido, na sensibilidade de quem entende do assunto de nascença. Nada de manuais ou, muito menos, auxílios desesperados no Google…

Carros modernos praticamente não quebram mais. São testados à exaustão em bancadas de fadiga, montados com componentes avaliados e aprovados até pela Inteligência Artificial. As revisões são feitas na maior tranquilidade do mundo e, mesmo após o término da garantia, qualquer veículo moderno tem fôlego para durar mais algumas décadas. Só basta fazer um uso minimamente racional e não esquecer da manutenção básica em dia.

A frota cresceu, os produtos se modernizaram e a demanda subiu. Em proporção avassaladora e direta a tudo isso, velhos mecânicos – aqueles ´monstros´ sorridentes que colocavam apelidos nos próprios clientes e sabiam de cor a escalação do seu time predileto – estão em preocupante extinção, o que é uma pena! Era chegar, abrir o capô, apertar a mão e deixar a coisa fluir. Em alguns minutos o diagnóstico vindo da mais assertiva sensibilidade já estava feito. Nada de computadores plugados por baixo do painel, avaliações eletrônicas e manuais digitais: o universo automotivo primitivo cheirava a gasolina, óleo velho, fumaça de cigarro e do cano de escape do carro do freguês. Além disso, uma linda canção brega de Reginaldo Rossi ou uma resenha numa rádio AM encantavam ainda mais o local com a sonoridade em carne e osso vibrando em boas energias! Triste fase atual do mundo, com revisões mecânicas feitas com agendamento prévio, oficinas silenciosas e tão limpas que dá até um certo receio de sujar o chão com a sola do sapato…

O sorriso matreiro, a piada sem maldade e as soluções inalcançáveis até pela NASA, já não existem mais. Tudo foi substituído por um frio “o senhor pode aguardar ali na nossa recepção…”. E a vida insípida continua após a ordem de serviço ter sido autorizada numa gelada tela de computador. Coisa mais sem graça do que uma sopa de pepino com chuchu… (Imagem: Microsoft Designer Creator IA / Instagram: @acelerandoporai.com.br)