Tão intrigante quanto saber se a galinha nasceu antes do ovo ou vice-versa…, sempre me faço a seguinte pergunta: porque os microcarros não se tornaram maioria nas grandes cidades? O panorama caótico está aí: falta de espaço para se estacionar em vias públicas, trânsito superlotado, estacionamentos particulares com preços nas alturas e uma intolerância colossal ao volante, capaz de tirar a calma até de um monge tibetano em retiro espiritual há um século!
São pouquíssimos os exemplares de carros supercompactos que deram (mais ou menos) certo no mercado. O Smart ´fortwo´ foi um deles e agora está voltando com trem de força 100% elétrico. Veículo de nicho muito exclusivo, desde o começo chegou ao ambiente europeu custando uma pequena fortuna em relação ao que oferece, infelizmente…
Quem optava por um Smart, provavelmente o fazia mais para exalar charme e exclusividade do que para adotar um estilo mais coerente de mobilidade, visando a economia de combustível e a cessão de mais espaço nas vias, dado o porte diminuto do carro para apenas dois ocupantes.
Cada país tem suas características principais no segmento automotivo: Estados Unidos, por exemplo, lugar com grande vocação para o agronegócio, tornou-se o maior berço do uso de picapes. Existem modelos enormes, inclusive com o chamado “rodado duplo” (quatro pneus) no eixo traseiro. Muitas delas exibem um engate apocalíptico no meio do compartimento de carga para rebocar até um trem carregado de ferro!
Antítese disso, o Japão adota outra filosofia: preferem carros mais compactos e silenciosos; e agora passaram a consumir mais híbridos e elétricos. Os próprios norte-americanos, com diversas opções de ótimas picapes, não conseguem vender esse tipo de veículo em território nipônico com o sucesso que sempre desejaram. As ruas japonesas são mais estreitas e, praticamente todas as cidades exigem que o novo comprador de um carro zero quilômetro comprove que possui uma vaga para guardá-lo, já que é proibido deixar carros estacionados em qualquer canto, sob pena de levar pesadas multas.
O Brasil também tem uma cultura automotiva um tanto atordoada: tem gente que utiliza picape como veículo do dia a dia, existem usuários de SUVs de tamanho grande que são solteiros… e tantas outras pessoas que simplesmente compram carros com altos recursos tecnológicos, mas que o subutilizam por puro desconhecimento do produto.
Mas o ponto principal mesmo é o excesso de tamanho da carroceria e o espaço que sobra na maioria dos carros que rodam pelo mundo. Geralmente são veículos homologados para até cinco ocupantes, que transitam quase sempre com apenas uma pessoa a bordo. Nos Estados Unidos, em diversas autoestradas existe uma quarta via livre (espécie de “faixa azul”, sempre à direita) totalmente liberada para os carros com quatro pessoas a bordo. É um prêmio para quem é coerente ao volante.
E os lampejos de esperança, de vez em quando aparecem: em julho de 2023 surgiu um boato de que a Citroën iria revender no Brasil o seu microcarro “Ami”, um minúsculo e simpático modelo elétrico adequado para apenas duas pessoas e com diversas possibilidades de modularização, como trafegar com ou sem a capota, com ou sem as portas e por aí vai. Mas não passou de papo furado… Esse minicarro (que é vendido na Europa e permitido para pessoas a partir de 14 anos de idade) jamais apareceu por aqui oficialmente nas lojas dessa marca francesa.
O mais coerente seria uma escolha bem racional na hora de comprar um automóvel. Afinal de contas: pra quê eu quero esse ou aquele veículo? Ele será adequado ao meu uso diário? Preciso de um espaço mais amplo no porta-malas? Quantas pessoas irão se locomover comigo dentro desse carro cotidianamente?
Difícil de responder a perguntas aparentemente simples como essas, pois, aonde há apenas um ser humano, existe um oceano de subjetividade ao seu redor. Enquanto isso… a humanidade segue transportando sacolinhas plásticas de supermercado nos assentos dos carros, ignorando o porta-malas e outras possibilidades de uso, certamente mais práticas e de menor custo financeiro… (Fotomontagem: Agência FBA / Instagram: @acelerandoporai.com.br)





