Existe um antigo ditado popular que diz o seguinte: “Quem não tem dinheiro, fala fino… e quem tem, dá as ordens”. Utilizei esse adágio para enfatizar a posição da Alemanha sobre a proibição – pela União Europeia – da venda de novos carros movidos a combustíveis fósseis a partir de 2035.
Por intermédio do chanceler Friedrich Merz, a indústria automobilística germânica agora deixou bem claro o seu desejo de alterar, atrasar ou simplesmente se negar a obedecer à essa imposição da União Europeia, já que, pelo andar da carruagem o projeto está se mostrando utópico e praticamente impossível de ser implementado na data estipulada. E a Alemanha tem força financeira suficiente para se opor, já que tem carregado aquele continente nas costas em várias ocasiões nas últimas duas décadas pagando a maior parte das contas.
Os motivos são vários: a indústria automotiva global não conseguiu atingir patamares de vendas de veículos eletrificados como se imaginava. Como a produção não chegou a números esperados, os preços dos veículos elétricos não diminuíram, coisa que aconteceria de maneira natural em paralelo ao aumento da demanda.
Um dos pontos principais é a redução das emissões de gases poluentes dos motores a combustão. Evidentemente, seria espetacular se a poluição oriunda disso caísse no mundo inteiro. Ar puro, mais verde, pulmões mais limpos… Isso é sensacional, mas talvez demore mais um pouco a acontecer.
A questão é que as grandes marcas tradicionais da indústria automotiva já perceberam que – mesmo os consumidores dos países mais ricos do mundo – simplesmente não estão tão interessados em veículos eletrificados como se imaginava que fosse acontecer em larga escala e em menos tempo. E, dentre os “calcanhares de Aquiles”, dois aspectos ainda incomodam: o longo tempo de recarga e a autonomia limitada.
A bifurcação enevoada abriu-se diante dos olhos dos grandes produtores de automóveis e dos milhares de agregados que orbitam ao redor dos ´players´ mais poderosos. São diversos os casos de marcas conhecidas que até iniciaram processos de desenvolvimento de carros elétricos e, mesmo após investirem bilhões de dólares, abandonaram ou desaceleraram projetos do tipo.
Logicamente, que todo usuário de veículo, mesmo sendo abastado, deseja economia de combustível e, sim, procura saber sobre o custo/benefício por quilômetro rodado do seu automóvel. Para se livrar da dependência dos (ainda raros) pontos de recarga públicos (principalmente em rodovias), os modelos híbridos (combustão + elétrico) estão se popularizando com maior rapidez entre a clientela. É o “melhor de dois mundos” na atualidade. E estão vendendo muito bem.
Além desses pontos diretos (emissões, preocupações ambientais, acordos políticos a cumprir etc..) há uma gigantesca cadeia produtiva ligada aos modelos a combustão. Extração de petróleo (para o diesel e a gasolina) e cultivo da cana de açúcar (para a feitura do etanol). Isso envolve muitos empregos e uma parcela significativa do PIB de dezenas de países importantes.
Vale destacar aqui que o automóvel com quatro rodas, ao longo dos tempos tornou-se o grande vilão das emissões de gases poluentes no mundo. Sempre é bom relembrar das gigantescas frotas de embarcações, aeronaves e caminhões de todos os portes e de uso civil e militar, além das motocicletas, extremamente poluidoras e existentes aos milhões.
O percentual de veículos elétricos dentro desse contexto ainda é mínimo. E, diante de um mundo tão dependente de rotas aéreas, terrestres e marítimas para se manter em funcionamento, nem é preciso ser um especialista no ramo para entender que ainda é muito cedo para mudanças tão radicais quanto a proposta feita pela União Europeia, idealizada para ser cumprida já a partir de 2035. Acredito que haverá, sim, desobediência de vários países em relação a essa meta. Há séculos é assim: o capitalismo se impõe à poesia… (Imagem: Microsoft Designer Creator IA / Instagram: @acelerandoporai.com.br)





