A quantidade de produtos expostos nas vitrines e prateleiras, assim como essa enxurrada de informações (em sua maioria, banais) que as redes sociais geram a cada instante, causam uma espécie de colapso cognitivo no cérebro humano. Chega um momento em que os olhos não sabem mais para onde enxergar e os instintos mais primitivos da alma também se confundem.
A realidade mostra que o mundo corporativo global tem despejado ´mesmices´ no cotidiano das pessoas. Outro dia vi uma propaganda (dessas rapidinhas com poucos segundos) de um famoso banco brasileiro. Era um intervalo de uma série que eu estava assistindo pela Netflix. O diálogo entre uma moça e um rapaz é praticamente ininteligível para quem (assim como eu) não conhece todas as “celebridades” geradas pelo infantilizado universo digital. Um péssimo comercial, daqueles que faz a gente lamentar a morte de publicitários como Washington Olivetto, por exemplo.
Sim, agora temos o excesso de tudo: músicas-lixo, comidas industrializadas, falsos ícones criados pelas redes sociais e péssimos pacotes turísticos, incluindo aviões e aeroportos lotados e desconfortáveis. Tudo consumido em larga escala como se fosse parte de um fino banquete elaborado por um chef francês dos anos ´1960. (Vou ser moderninho no texto): #SQN… que quer dizer “Só que não…” Pelo contrário: o Brasil começou a se acostumar com o que há de pior no mercado. Jovens ainda analfabetos cursando o seu último ano escolar, representam um aspecto da realidade macabra de um país que já se contentou em ficar com a pior parte do bolo.
Lembrando dos carros no passado, me recordei dos portfólios bastante limitados de modelos à venda. Basicamente estavam disponíveis no mercado os veículos ´standard´ ou ´luxo´. Com o passar do tempo essa sopa de letrinhas foi aumentando e confundindo o consumidor. E piorou quando entrou em cena a vasta lista de ´opcionais´. Hoje, além de centenas de modelos e múltiplas marcas, existe o compartilhamento de plataformas, motores e peças. O fenômeno surgiu para diminuir custos de projeto. Sem dúvida, é um tipo de modularidade muito prática, funcional e lucrativa no mundo dos negócios. Mas isso gera um ´cardápio´ com opções quase idênticas, que só se diferenciam pela “roupagem” de uma ou outra marca.
O que aqui estou fazendo é apenas uma recordação saudosista de quem ama automóveis e sempre se encantou, justamente, com as particularidades de cada um. Por exemplo: o barulhinho das válvulas de um motor de Fusca não se parece com nada mais do que outro Fusca… A estabilidade e o “jogo” de direção de um Chevette, são únicas dele mesmo! A maciez do câmbio e o som do escapamento de um Dodginho Polara são preciosidades da engenharia mecânica de origem inglesa e que não se comparam a nada.
Hoje em dia tudo parece ter a mesma origem com o cheiro comum da contenção de custos, do compartilhamento de projetos e da produção em larga escala. No segmento automotivo, talvez a marca japonesa Subaru seja a última heroína da resistência a manter-se fiel aos seus conceitos iniciais. Quem compra um Subaru, certamente dirige um legítimo Subaru…
Ainda com saudade do que era bom. Lá no passado, a palavra ´Crush´ (que em inglês significa ´esmagar´ ou ´colidir´), era apenas o nome de um refrigerante delicioso de laranja ou uva. Havia vida e personalidade nas coisas! A chegada de um Chevrolet Opala SS vermelho com motor de 4.100 cilindradas e faixas esportivas nas laterais, era um acontecimento em qualquer rua. Coisa digna de se celebrar com um Guaraná Champagne, uma maravilha que a Antártica descontinuou do seu catálogo. Ele borbulhava até o último gole, com gás de sobra para alegrar uma festa inteira! Sabor, cheiro e gosto inigualáveis, com pouca química e muita diversão!
Agora… alguns Mercedes-Benz funcionam com motores da Renault, Suzukis são produzidos na Índia com o carimbo da Toyota no porta-malas, Citroëns são Fiats disfarçados e por aí vai… Resta sentar na poltrona e, com assombro, continuar assistindo as populares insanidades do admirável mundo novo… (Imagem: Microsoft Designer Creator IA / Instagram: @acelerandoporai.com.br)





