buru-rodas

No atual baile automotivo, quem dá o tom é o mercado chinês…

A indústria chinesa de automóveis de passeio começou a surgir nos anos ´1950, mesma época em que o Brasil também dava os primeiros passos como importador e fabricante. O tempo passou e o mercado nacional manteve-se do mesmo jeito, sem maiores aspirações, sempre atuando como uma filial de grandes marcas europeias e norte-americanas.

O relógio continuou a correr e o Brasil solidificou-se como o eterno “país do futuro”, momento que jamais chegou, por causa da corrupção enraizada quase como uma cultura nacional. O riquíssimo e mal administrado gigante da América Latina, na contramão da história, estagnou-se tecnologicamente. A população maciçamente analfabeta é a prova disso, infelizmente.

Em paralelo, a China investiu na formação intelectual dos seus cidadãos. Manteve escolas técnicas para qualificar pessoas de renda mais baixa e dificultou – no melhor sentido – o acesso às faculdades. Só entram no mundo acadêmico superior aqueles estudantes que se posicionam excepcionalmente acima da média. O mérito ainda é moeda válida por lá. Formados, eles garantem um futuro melhor para si mesmos e para a família. O projeto deu certo e a China hoje exporta profissionais de altíssima qualidade. O que isso tem a ver com o universo automotivo?

Pessoalmente, me lembro de jovens chineses, literalmente agachados e até deitados embaixo de veículos ocidentais expostos em suntuosos Salões de Automóveis pelo mundo. Eles filmavam e fotografavam absolutamente tudo! Isso aconteceu a partir dos anos ´1990. A indústria chinesa cresceu plagiando grandes ideias e até hoje enfrenta nos tribunais várias ações de fabricantes tradicionais que se sentem prejudicados por verem, principalmente, o estilo dos seus veículos sendo, descaradamente, copiado.

A questão é que, imitando boas ideias ou não, a indústria automotiva chinesa aprendeu a fabricar veículos e hoje, em muitos casos, supera em qualidade construtiva até mesmo alguns velhos medalhões da Europa e Estados Unidos. Eles aprenderam a lição e agora o jogo virou de lado: são grandes exportadores e estão atuando em quase todos os mercados, brigando pela liderança. Essa é a realidade dos fatos.

Com um cenário tecnológico em rápida transformação, aonde os carros convencionais com motor a combustão estão sendo gradualmente substituídos por veículos elétricos, são vários os desafios que os fabricantes já estão enfrentando; dentre eles, a gestão de cadeias de suprimentos, legislações focadas em cumprimentos de metas antipoluição e até o garroteamento do fluxo de importações e exportações por causa de inesperados eventos geopolíticos, como a guerra entre os Estados Unidos e Irã. Apesar da eletrificação automotiva galopante, o petróleo ainda ocupa lugar de larga relevância no cenário da mobilidade. Em resumo: somente sobreviverão as empresas que conseguirem se adaptar aos novos modelos de negócio automotivo.

Mesmo com um enorme ceticismo ainda vigente, em 2025 foram comercializados quase 14,8 milhões de veículos elétricos no mundo todo. Majoritariamente, chineses. Ainda dentro do contexto, os países asiáticos tornaram-se essenciais para as cadeias de suprimentos. A China, por exemplo, é a maior detentora de ´terras raras´ (que incluem minerais como lítio, níquel, grafite e cobalto), componentes indispensáveis para a fabricação de semicondutores e baterias.

Parece exagero, mas não é: hoje já não se pode falar em fabricação global do setor automotivo com alto padrão qualitativo, sem citar os grupos BYD, Geely, Chery e GWM, ambos chineses, extremamente capitalizados e aguerridos no campo de batalha.

A meu ver, só existe um detalhe que será definidor na consolidação absoluta dos produtos automotivos chineses: a liquidez na condição de carros usados e já fora da garantia. Esse movimento do mercado – de assimilação ou repulsa – creio que só será perceptível a partir de 2030. (Fotomontagem: Agência FBA / Instagram: @acelerandoporai.com.br)