O jornalista britânico Walter Bagehot escreveu certa vez que “o maior prazer da vida é fazer aquilo que as pessoas dizem que você não é capaz de fazer”. Pode não ser o maior, não sejamos tão categóricos, mas certamente é um dos melhores.
Recordemos da rivalidade mais emblemática do mundo automobilístico. Nos anos 1960, a Ford Motor Company estava prestes a adquirir a Ferrari quando Enzo Ferrari, no último instante, recuou.
Se não puder vencê-los, junte-se a eles, certo? Não para Henry Ford II. O executivo teve uma ideia melhor: se não podemos comprá-los, vamos vencê-los. E mandou ver na criação de um supercarro capaz de derrotar as máquinas vermelhas de Maranello na mais prestigiosa competição da época: as 24 Horas de Le Mans. Assim nasceu o lendário Ford GT40, que venceu a corrida em 1966 e dominou o pódio com uma chegada tripla.
Esse exercício de superação de conflitos atravessa todos nós, seja na relação com o outro, seja na relação consigo mesmo (que, invariavelmente, é construída nas anteriores). Daí Sigmund Freud concluir em “O Mal-Estar na Civilização” que “grande parte do sofrimento humano deriva de nossos relacionamentos com os outros”. Alguém tem alguma dúvida?
A batalha é árdua, e nem mesmo a genialidade garante a vitória. Nikola Tesla abandonou muitos de seus projetos revolucionários após ser traído financeiramente por Thomas Edison e J.P. Morgan, morrendo praticamente na pobreza e deixando ideias promissoras inacabadas. Emily Dickinson, uma das maiores poetas americanas, publicou menos de uma dúzia de poemas em vida e, após duras críticas ao seu estilo não convencional, passou a escrever apenas para si mesma, deixando mais de 1.800 poemas inéditos. Franz Kafka, desencorajado pelo reconhecimento limitado e pelas críticas, pediu a seu amigo Max Brod que queimasse seus manuscritos não publicados – um desejo que, felizmente, não foi atendido. Gregor Mendel, pai da genética moderna, viu seu trabalho ser ignorado e ridicularizado, o que o levou a abandonar a pesquisa e dedicar-se apenas à administração do mosteiro onde vivia. E Sylvia Plath, mesmo continuando a escrever, teve sua criatividade profundamente afetada pela traição do marido, Ted Hughes, episódio que contribuiu para seu suicídio aos 30 anos.
No meio do caminho entre a resposta imediata e a desistência definitiva, há outros tempos de superação. Durante o isolamento da pandemia, por exemplo, um vídeo despretensioso no YouTube tocou o coração de pacientes hospitalizados, oferecendo-lhes um raro momento de conexão emocional e diversão. Nele, um músico com tatuagens de caveira, barba espessa e humor afiado dedilhava sua guitarra em uma versão acústica de Comfortably Numb, clássico do Pink Floyd.
A interpretação dessa música – e, mais tarde, de outros covers – trouxe alívio não apenas a inúmeras pessoas em meio à solidão, mas também a ele próprio. O que poucos sabiam era que aquela era sua primeira gravação após duas décadas de silêncio. Quando jovem, sonhava em ser cantor de rock, mas os “amigos” diziam que lhe faltava talento. Mesmo ao receber um convite para tocar em um bar famoso da região, as palavras desencorajadoras pesaram mais que a oportunidade.
Por vinte anos, o músico duvidou de si mesmo e abandonou seu sonho, até encontrar coragem para desafiar seus próprios limites. Antes disso, tornou-se luthier, consertando guitarras e violões enquanto, de certa forma, consertava a si mesmo; construindo instrumentos a partir da madeira bruta: reconstruindo-se. Foi Pablo Picasso quem disse que “O sentido da vida é encontrar seu dom. O propósito da vida é oferecê-lo aos outros”.
Teremos derrotas e vitórias, poucos incentivos e muitas críticas. A questão é: a quem daremos ouvidos? O resultado da jornada desse músico você pode conferir abaixo e, quem sabe, inspirar-se a escutar a voz que acredita no melhor de você. Como mostra o próprio paradoxo de “Comfortably Numb”, até da letargia e da paralisia pode surgir a criação – um ato revolucionário.
Veja o vídeo:
(Imagem: Divulgação 20th Century FOX / Instagram: @acelerandoporai.com.br)