buru-rodas

Vire a chave: a arte de ir a lugar nenhum

Se você estiver cansado de se superar, de se autoconhecer, de transformar tudo na sua melhor versão – inclusive a própria dor –, seja bem-vindo. Sente-se aqui, ao meu lado. Desafivele o cinto de segurança. São só alguns minutos enquanto vamos a lugar nenhum. Ou melhor: vamos, sim, atravessar o tempo desta leitura com a rara liberdade de sermos só o que somos nesse instante.

Este texto não é para melhorar nada. Até Freud advertia que nem tudo precisa ser superado. Algumas coisas apenas precisam “não” ser empurradas para fora. Há sofrimentos que não se resolvem. Não se superam. Não se transformam em aprendizado.

Aqui você pode não saber. Pode não querer. Pode ser ninguém. Ser ninguém é como um banho de mar num dia quente. Raduan Nassar era um gênio. Escreveu dois livros e depois foi viver no mato. Daniel Day-Lewis ganhou o primeiro Oscar pelo filme “Meu pé esquerdo” e interrompeu a carreira para aprender a fazer sapatos em Florença.

Self? Não haverá um eu ideal para ser fotografado. Nem opinião sobre nada. Nada de provar ao mundo o quanto é possível disfarçar a angústia em um sorriso editado com inteligência artificial. Como se você fosse feito para florescer em todas as estações. Onde está o inverno da sua alma? O suor pegajoso e morno do verão? O outono em que os amores caem como folhas do tronco? Traga todos eles.

Tenho uma proposta. Vamos experimentar um pouco daquilo que Winnicott chamava de capacidade de estar só na presença de alguém? Funciona mais ou menos assim: você pode ficar em silêncio sem se sentir abandonado. Não precisa performar, agradar, conversar, explicar quem é ou o que sente. Não precisa ser interessante.

Vou ficar em silêncio para você treinar. Fique o tempo que quiser. Sem promessa. Sem virada de branco-paz, amarelo-dinheiro, verde-saúde. Sem moral da história.

Por hoje, talvez baste trocar “o que quero da vida?” por “o que a vida quer de mim?”. Se ela também não estiver cansada de tanta exigência, talvez sussurre uma pista. Ou não.

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