buru-rodas

A emblemática marca inglesa Jaguar corteja com a extinção

O tradicional mercado automotivo global, aquele com cheiro de mofo e sem pressa de apresentar grandes novidades por não sofrer quase nada com a concorrência, praticamente acabou. Por várias razões, dentre elas, uma em especial: o consumidor já não é mais fiel à marca alguma. Tenho visto amigos de longas datas, outrora usuários apenas de modelos chancelados por famosos fabricantes, migrarem com um sorriso no rosto para novas marcas, principalmente as chinesas.

Ninguém parece, sequer, se importar se o carro comprado zero km hoje terá um bom valor de revenda na condição de ´usado´ daqui a uns três anos e meio; e também não estão nem aí se ficarão reféns de alguma marca, caso seja ela a única que aceite o seu veículo como parte de pagamento na troca por outro novo. Enfim… velhos paradigmas quebrados, novos panoramas abertos.

A Jaguar – marca centenária fundada em 1922 na Inglaterra – tornou-se famosa por oferecer produtos bem exclusivos que se diferenciavam pelo luxo, capricho no design, acabamento primoroso e muita esportividade. Ela sempre se equiparou em charme e elegância com marcas igualmente caras, como a Bentley e a Aston Martin e, ao longo de décadas, conseguiu conquistar um nicho de mercado invejável com clientes extremamente fieis que passavam a vida inteira a bordo de um Jaguar.

Essa lendária marca atravessou a escassez da segunda Grande Guerra (1939-45), sobreviveu a um grave incêndio em Coventry (Inglaterra) nos anos ´1950 e resistiu à chegada e evolução de vários concorrentes. Seu público cativo estava ali, sempre à espera de um grande lançamento ou de uma edição especial e limitada vendida a peso de ouro, ou seja, o universo Jaguar era bem definido com charme de sobra e clientes que não se importavam com a tabela de preços. Com uma média de venda anual de apenas 20 mil unidades, sua margem de lucro era tão grande que a empresa sempre fechava suas contas ´no azul´. Mas as coisas mudam…

Após picos de ótimas vendas de 120 mil unidades/ano com carros que começaram a se popularizar sendo produzidos em escala mais larga, associado à uma oscilação gigantesca desse volume de comercialização, a Jaguar começou a sangrar a ponto de ser adquirida pela Ford em 1989. Esse foi um período negativo e crucial para a marca, no sentido dela começar a perder a clássica identidade. Logo depois a Ford adquiriu a Land Rover e chegou a fundir as duas marcas, apresentando para o mundo a estranheza da sigla ´Jaguar Land Rover´, empresas que nada tinham a ver entre si. Uma, urbana, luxuosa e exclusiva. A outra com raízes off-road e com a brutalidade explícita em seus projetos ultra resistentes. Em 2008, a indiana Tata Motors adquiriu a JLR e o que se viu foi a evolução enorme da Land Rover/Range Rover e a decadência da Jaguar.

Por volta de setembro de 2024, oficialmente a Jaguar anunciou que paralisaria por, pelo menos, um ano, a sua produção completa. Extinguiu os sedãs XJ, XE e XF e os crossovers E-Pace, I-Pace e o esportivo F-Type. Até o SUV F-Pace (carro que segurou por muito tempo a folha de pagamento da empresa) foi retirado de linha. O ousado e novo objetivo da lendária marca Jaguar, segundo Joe Eberhardt, seu presidente e CEO, será “o desenvolvimento de três modelos 100% elétricos, totalmente únicos e que não se pareçam com nada”. O Type 00 é um deles. E um ponto principal a ser observado nesse momento da marca é que a Jaguar pretende vender esses três veículos com preços lá em cima, cortejando altíssimas margens de lucro dos tempos áureos. Dificilmente conseguirá.

Para completar a sequência de desacertos, no final do ano passado a Jaguar causou um impacto extremamente negativo ao divulgar nas redes sociais uma campanha de marketing completamente desconectada dos seus princípios mais fundamentais. Modelos sem vida no rosto, vestidos com roupas multicoloridas e posando em cenários psicodélicos, atropelaram a sobriedade e a elegância que sempre foram os pontos marcantes da sua identidade. Até o seu símbolo máximo – um feroz Jaguar prateado e sempre encravado na parte superior frontal do capô – foi eliminado e substituído por um logotipo sem graça, primitivo e de péssimo gosto.

A Jaguar é um ótimo exemplo de desconstrução de marca, de falta de atenção com as novas tendências de mercado e também um excelente modelo de estudo para se debruçar e entender a velocidade da mudança das coisas hoje em dia. Diante dessa confusão toda, eu aposto mais na extinção dessa antiga e bela marca do que num ressurgimento glorioso. (Fotos: divulgação Jaguar / Instagram: @acelerandoporai.com.br)