De uma simples agulha de costura até um moderno robô capaz de realizar minuciosas cirurgias em cérebros humanos, a indústria chinesa consegue produzir – em larga escala – qualquer coisa, mesmo que isso signifique, com alta probabilidade, uma gigantesca bolha econômica, que trará desemprego e largos prejuízos no futuro.
Os setores automotivo, imobiliário e de energia solar, há vários anos, já entraram em alerta máximo no mercado chinês, dada a uma longa turbulência que parece não ter fim. É bem fácil de entender: o único partido político existente na China, incentiva, através de largos subsídios e de políticas governamentais ininteligíveis do ponto de vista financeiro, a produção desenfreada (de placas solares, construção civil, veículos…) sem se importar com a lógica mais racional – conhecida no primeiro dia de aula de qualquer faculdade de Economia – que é a “demanda do consumidor”. Cristalino como água: se existe muita produção, a tendência dos preços é encolher a ponto de gerar danos no caixa de qualquer empresa.
É uma ciranda complexa e absolutamente insana do ponto de vista comercial. Os governadores das províncias chinesas, com o apoio irrestrito do ´partido´, caem em campo em busca de empreendedores que queiram fixar-se em seus redutos, cedendo áreas para a construção de fábricas a preços extremamente convidativos, além de bônus anuais vinculados, logicamente, à quantidade de impostos que esses novos negócios devam gerar para aquele lugar específico. O ponto central da questão é somente um: aparecer bem diante do governo como um gestor corajoso e que traga resultados. Só que a coisa já não funciona mais como antes…
Sem a menor dúvida, essa postura do governo chinês (baseada em enormes subsídios e mão de obra de custo baixíssimo) conseguiu tornar a China uma nova potência automotiva global, liderando, principalmente, as vendas de veículos 100% elétricos e híbridos. Já a sua indústria de carros puramente a combustão, só para fazer um paralelo, está esgotada e funcionando no vermelho há muitos anos.
Para tentar manterem-se vivas no mercado, as 129 marcas de veículos chineses que continuam com os seus “CNPJ” ativos, realizam manobras espetaculares e incompreensíveis. Por exemplo: emplacam carros zero quilômetro em enormes quantidades para poder registrar (perante o governo), vendas fictícias… Mesmo que essas comercializações não tenham ocorrido, legalmente as concessionárias se qualificam em programas de novos descontos de fábrica e outros tantos bônus das montadoras locais.
E, acredite: mesmo com os pátios das revendas abarrotados de carros zero KM (que agora já são considerados veículos usados), as fábricas continuam com suas linhas de montagens ativas, apesar de terem conhecimento de que 7 em cada 10 concessionários (70% do mercado!) não vão conseguir lucrar absolutamente nenhum centavo nas suas operações. Na China existem tantos carros novos encalhados, que há modelos sendo vendidos com 65% de desconto por concessionários desesperados e que não tem mais espaço físico para guardar o seu estoque.
As mesmas políticas governamentais que impulsionaram o crescimento gigantesco e uma notável inovação na indústria automobilística chinesa, agora estão gerando transações com prejuízos para todos os integrantes da cadeia de vendas doméstica de automóveis. Estima-se que, no máximo, 15 (das 129 marcas) conseguirão sobreviver até 2031. A situação é esdrúxula e claramente explosiva, ou seja, não terá um final feliz. Mesmo assim, os ministérios da Indústria e do Comércio e a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma continuam incentivando essa proposta saturada de negócio.
Além das marcas locais, de origem puramente chinesa e que atuam sozinhas, outras fabricantes ocidentais (como Audi, General Motors, Ford, Volkswagen, Stellantis etc), que funcionam em ´join-venture´ com marcas da China, também estão sufocando. Em 2020 as empresas ocidentais detinham quase 63% do mercado automotivo chinês. Agora, em 2025, estão com pouco menos de 31% da fatia. Isso são dados oficiais da ´CAAM´ (Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis).
Mas, será que existe solução para evitar a ruína das indústrias domésticas da China? Aquele gigantesco país se beneficia da inevitável geração do PIB por causa do volume de suas operações. São milhões de operários que preferem receber pouco a não ter nada no bolso no fim do mês. Por lá, negócios abrem-se e fecham-se num piscar de olhos e o governo vai levando ´na barriga´, mesmo que os prejuízos sejam tão aparentes e o panorama tão nebuloso para o futuro.
Uma das poucas válvulas de escape, espécie de grito “salve-se quem puder”, para a indústria de automóveis da China são as exportações, principalmente para países subdesenvolvidos como o Brasil e o restante da América Latina, que pouco se importam se a chegada de veículos em concorrência aguerrida de preço, vão ou não afetar a indústria local. Nesse momento, por exemplo, a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) trava briga discreta com o governo federal, em relação a isenção e descontos de impostos de importação de automóveis. Lá fora, o governo dos Estados Unidos praticamente proibiu a entrada de veículos chineses, sob pena de quebrar a tradicional indústria local de carros nos EUA. Na Europa, novas tarifas tentam barrar a atuação dos chineses, pelo mesmo motivo.
Com toda pompa, bonitos carros expostos em luxuosos ´showroom´s´ e preços bastante atraentes, a China empurra seus automóveis pelo mundo. Por trás dessa maquiagem bonita, a fragilidade de muitas marcas se esconde sem deixar vestígios. A meu ver, por volta de 2028 começaremos a perceber o resultado final disso e as consequências que surgirão. Ponto em destaque: qual será a aceitação pelo mercado de um carro chinês usado e fora da garantia? A incógnita é grande, principalmente com essa possibilidade real de várias marcas chinesas sumirem do mapa em poucos anos. (Fotomontagem: Agência FBA / Instagram: @acelerandoporai.com.br)





