Confesso: tenho aversão a entrar num carro, sentar no banco do passageiro e ser conduzido por outra pessoa ao volante. Me sinto intranquilo, inseguro e, enquanto o trajeto não se completa, simplesmente não consigo relaxar. Logicamente, como qualquer pessoa, de vez em quando preciso utilizar um táxi ou ´veículo por aplicativo´ para resolver algum assunto pessoal.
No meu caso, o bate-papo geralmente começa (e termina) com temas automotivos ligados, quase sempre, ao veículo que estou utilizando naquele serviço terceirizado. Gosto de perguntar se o motorista é experiente no ramo, se o carro dele está alimentado com gás GNV ou combustíveis mais tradicionais, questiono sobre quantas horas por dia ele roda pela cidade, qual o custo médio mensal de manutenção… e por aí as vias vão ficando para trás, o tempo vai passando e, consequentemente, a minha leve “angústia” de não ter o comando do veículo literalmente nas mãos, vai se tornando mais amena.
Veículos utilizados em transporte de passageiros aqui no Brasil são os chamados ´carros de passeio´ comuns. São automóveis idênticos aos utilizados por qualquer pessoa. O que é um erro. A Inglaterra talvez tenha sido o pioneiro (e um dos pouquíssimos países) a ter um modelo de carro específico para servir como táxi, por exemplo. São muito famosos os ´black cabs´, táxis pretos de Londres. Extremamente robustos, são preparados para o serviço pesado: suspensão e portas reforçadas, teto alto (para receber passageiros com chapéus), acessibilidade à cadeira de rodas e espaço interno adequado, também, a cão-guia, geralmente animal de porte grande.
No Brasil, creio que a melhor solução para veículos por aplicativo e táxis trafegarem em ruas tão esburacadas, seria uma versão totalmente espartana da Toyota SW4 com propulsão híbrida (diesel + motor elétrico). Mas isso é um sonho utópico… O que encontramos por aqui são carros bem surrados e inadequados para esse tipo de ´missão´ automotiva.
Já utilizei muitos táxis e UBER pelo Brasil inteiro e, levantando essa questão, as reclamações e concordâncias são bem unânimes: a maioria acha, sim, que seria bom apenas um tipo de veículo a ser utilizado com o fim de transportar pessoas com conforto e segurança.
Dentro da impressionante versatilidade que o brasileiro tem em driblar dificuldades e se adaptar às mais difíceis situações, o fato de usar um carro comum em condições incomuns, não é um problema. Outro dia utilizei dois veículos (de aplicativo) que me impressionaram pela boa condição geral, apesar da alta quilometragem: um Hyundai HB20 hatch (2019, com 246.000 km rodados) e um VW Gol (2016, com 225.000 km rodados). Ambos com motorizações originais (ainda sem serviço de retífica) e com estruturas bem intactas. Os dois motoristas me disseram somente gastar dinheiro em manutenção com troca de óleo (+ filtro), substituição de pastilhas e ´fitas´ de freio e ajustes nas suspensões.
Nos dois casos, pela quilometragem e tempo rodado numa atividade comercial, esses veículos já haviam ´sido pagos´ por completo, com o valor de compra inicial diluído no estressante cotidiano por trás de um volante. Pensando nessa turma, refleti e concluí que aquele papinho de trocar o carro “porque ele já está com 35.000 km rodados” é conversa de quem já está com a vida feita…. Bem diferente de um profissional que encara 12 horas de trânsito hostil por dia num veículo com câmbio manual, suspensão baixa, com rodas pequenas e, nem sempre, com ar-condicionado… (Fotomontagem: Agência FBA / Instagram: @acelerandoporai.com.br)





