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O tempo é a moeda mais valiosa no sistema de produção automotivo chinês

Pode até parecer a repetição de um clichê, mas o mercado está mostrando isso: “as regras do jogo automotivo mudaram”, e foram alteradas numa velocidade assustadora! Acredito que já dá para afirmar que o momento atual, o ano de 2025, representará – por um longo período – um inacreditável ponto de ruptura das amarras que sustentavam os fabricantes automotivos tradicionais no topo da pirâmide. Isso acabou.

De meras copiadoras de estilos, conceitos e tecnologias, as marcas chinesas estão, gradualmente, transformando-se em líderes de mercado e, mais do que isso, ditando novas regras e abrindo caminhos inéditos que se transformam em números maiores de vendas. E o ponto principal dessa incrível revolução automotiva chinesa é a rapidez na criação de novos projetos.

Para se ter uma ideia do tamanho da disparidade de competência, uma marca tradicional de origem ocidental, ainda necessita, em média, de 5,4 anos para desenvolver um carro novo. Partindo do zero, os chineses já conseguem realizar esse feito em 18 meses cravados, ou seja, em apenas um ano e meio eles apresentam um produto novo e mais atualizado do que qualquer veículo que esteja circulando no mercado, incluindo versões puramente a combustão, híbridas e, principalmente, 100% elétricas.

Como eles conseguiram isso? Simplesmente estudaram a fundo os repetitivos erros dos concorrentes, dos gigantes do setor que sempre se acharam invencíveis. Numa quebra de hierarquias tradicionais sem precedentes, os chineses criaram um modelo de negócio bastante horizontalizado, aonde existem poucas camadas entre os funcionários mais simples do “chão de fábrica” até o presidente da empresa. E, acredite: vários CEOs de marcas automotivas chinesas, de vez em quando, para entender a fundo os seus produtos, misturam-se entre os operários, assumindo uma jornada de trabalho inteira, vestindo macacão e atuando como se fosse fichado naquele posto mais simples. O avesso disso são os diretores de marcas tradicionais vestidos com ternos caríssimos, participando de longas e improdutivas reuniões, exigindo salários polpudos e privilégios como viagens aéreas de 1ª classe… Isso pode ser um panorama em extinção.

Ao invés de utilizarem as antigas ´bancadas de fadigas´ e divulgarem para a imprensa que “aquele veículo rodou mais de 1 milhão de quilômetros de testes em vários continentes…”, os engenheiros chineses utilizam simulação digital, realidade virtual e inteligência artificial para efetuarem rápidas tomadas de decisão. A gigante chinesa Geely, por exemplo, utiliza largamente a IA para explorar uma “biblioteca digital” que contém cerca de vinte anos de projetos da marca, para abreviar observações, encurtar processos de avaliação e, por fim, informar aos engenheiros quais são as peças existentes que funcionarão melhor e custarão menos para um novo projeto. Modificações que demorariam muitos meses para acontecer em fabricantes tradicionais do ocidente são efetuadas em poucas semanas (ou dias) na China.

E os números não mentem: as cinco maiores marcas tradicionais em atuação na China (General Motors, Nissan, Volkswagen, Toyota e Honda) entre 2020 e 2024 assistiram as suas vendas de carros de passeio caírem de 9,4 milhões de unidades anuais para 6,4 milhões. Ao contrário, as cinco maiores montadoras chinesas decolaram de 4,6 milhões de veículos para 9,5 milhões no ano passado! Enquanto várias empresas gigantes e famosas, com produtos caros e bem obsoletos amargam demissões e fechamentos de fábricas, a chinesa BYD, por exemplo, contratou mais de 200 mil pessoas nos últimos dois anos e agora mantém um quadro de 900 mil funcionários, número maior do que a Volkswagen e Toyota juntas!

O panorama, enfim, é outro completamente diferente. Muitos operários chineses residem em vilas dentro das próprias fábricas e trabalham em 6 turnos de 12 horas por semana. Sem saber exatamente o que fazer, marcas tradicionais começam a se render e se unir aos chineses em ´joint ventures´ para entender melhor as novas diretrizes de mercado e aprender sobre tecnologias inéditas. É o caso da alemã Volkswagen que agora desenvolve veículos com a chinesa Xpeng.

Outro detalhe impressionante desse absurdo crescimento das marcas automotivas chinesas é a capacidade de se modernizar, mas não deixar de usar eficazes métodos antigos. Na China a maioria dos fabricantes consegue produzir cerca de 75% das peças totais dos seus veículos. Além disso, fazem uso extensivo do compartilhamento dessas partes e das plataformas em toda a linha de produção. E para completar, ao realizar um novo lançamento, os chineses guardam na manga entre 5 e 10 projetos de evolução daquele veículo. Caso ele não seja devidamente aceito pelo público, em menos de 2 anos eles conseguem realizar um ´facelift´ de sucesso.

E apesar dessa pressa nas validações técnicas que envolvem a fabricação de um automóvel, todas as marcas chinesas têm conquistado classificações máximas de segurança (5 estrelas) nas avaliações do importante órgão de testes de colisão Euro NCAP. O cenário é outro e será difícil sobreviver diante dessa nova realidade… (Imagem: Microsoft Designer Creator IA / Instagram: @acelerandoporai.com.br)