Movimento antigomobilista mais importante da América do Sul, a “Autoclásica” (exposição argentina de carros antigos) chegou à sua 11ª edição de maneira muito charmosa. A mostra – que anualmente reúne em média 800 veículos antigos que tenham entre 30 e 125 anos de idade – este ano fez uma bela homenagem a um de seus maiores ídolos. Intitulada de “Autoclásica 2011: Tributo a Juan Manuel Fangio”, a exposição trouxe à tona toda a glória do pentacampeão mundial de Fórmula 1 argentino. Alinhados na entrada do evento, os principais bólidos de corrida de Fangio davam as boas vindas aos visitantes.
Organizado pelo ´Clube de Automóveis Clássicos da República da Argentina´ e contando, também, com o apoio de 50 entidades do ramo mais importantes do Brasil e Uruguai, a Autoclásica, como sempre, foi um belo exemplo de celebração do contexto histórico que envolve preservação e restauração automotivos.
Diferentemente de outras, a mostra não exibe somente carros de passeio. Numa incrível volta ao tempo é possível encontrar – além de belos automóveis – diversas motocicletas, carros de corrida, bicicletas, lanchas, ônibus, automóveis militares e até aviões! Paralelamente a isto (também nos jardins do hipódromo da cidade de San Isidro) acontece a “Autojumble”, riquíssima feira de peças, vendas de carros e apetrechos impressionantemente interessantes para os fanáticos pelo tema. Espalhados em 100 estandes ao ar livre, lindos souvenirs de “memorabilia” podem ser comprados por preços que variam entre (apenas) 5 Pesos argentinos (algo em torno de R$ 2,50) até milhares de dólares, dependendo da raridade, beleza, necessidade ou, obviamente, paixão. Numa profusão de cores e formas, há nesse ambiente, desde um belo acervo de livros e manuais de carros antigos, até brinquedos, miniaturas, roupas, bonés, óculos, acessórios de todos os tipos (como capacetes de pilotos de aviões-caça originais, carcaças de Fórmula 2, emblemas de época, pneus antigos e as mais inimagináveis esquisitices que algum apaixonado por carros possa pensar que existe. Não resisti e adquiri dois sonhos de infância: pequenas miniaturas de Fórmula 1 (dos anos 1960) feitas de lata e um lindo volante italiano (antigo e esportivo) da marca Momo. Brincadeira contida que me custou exatos 255 dólares americanos. Sorri e torrei a grana. Como dizia um filósofo nasseriano… “Mais vale um tesão do que um caminhão de melão”.
Em outro canto não há
Provavelmente não deve existir no mundo algum encontro tão interessante quanto a Autoclásica argentina. O evento se dá entre as sombras das árvores dos jardins do hipódromo da movimentada San Isidro, cidade vizinha a Buenos Aires que hoje se confunde com um bairro da capital federal. O local (frio e úmido nessa época do ano) recebe milhares de visitantes que pagam 35 Pesos para adentrar no ambiente. A mistura de grama pisada com água de chuva forma uma lama negra difícil de ser transposta sem que se suje (e muito!) os sapatos. Mas isso não é motivo para desanimar. Dois dias são suficientes para curtir tudo, fotografando e observando todos os setores. Pode anotar aí: o que você não viu em canto nenhum desse planeta, poderá encontrar na Autoclásica.
[nggallery id=53]
Fangio, o maior de todos
Célebre piloto argentino, Juan Manuel Fangio completaria 100 anos agora em 2011. Mito vivo, até hoje o pentacampeão é lembrado com muita reverência. Competidor espetacular, JMF é da época em que se corria em carros com (péssimos) freios, com sistema de câmbio bem primitivo e nível de segurança quase nulo. Muitos bólidos da época já atingiam até mais de 250 km/h e Fangio era um dos corajosos que aceleravam sem cinto de segurança e com um modesto capacete de couro.
O tributo ao nobre argentino exibiu os seus carros mais importantes, veículos que foram deslocados do “Museu Fangio” para os jardins da Autoclásica. Dentre eles, o Ford T/Chevrolet ´La Negrita´ (isso mesmo, um híbrido da GM e Ford), Chevrolet Coupé Turismo Carretera 1939, Maserati 4CLT/48, Simca Gordini T5, Maserati 250F, Ferrari 166 e a maravilhosa Mercedes W196, bólido alemão com o seu famoso Nº18 estampado na carroceria. Realmente uma emoção muito grande poder apreciar essa homenagem ao Fangio numa proporção que provavelmente não mais se repetirá em outra exposição.
Linha do tempo e raridades
A começar pelo 1º carro feito na Argentina pelo marceneiro Manuel Iglesias, espanhol imigrante e natural de Carbia, Pontevedra, na Autoclásica 2011 foi possível ver de tudo. Comemorando os 125 anos da criação do automóvel motorizado, a Mercedes-Benz aproveitou a exposição para mostrar alguns de seus modelos mais impactantes. Peças como um ´Cadenero´ 1912, uma linda “Asa de Gaivota” 1957 (com versões conversíveis também) e o primeiríssimo modelo (quadriciclo) feito por Gottlieb Daimler e Karl Benz abrilhantaram o espaço alemão.
A General Motors (também em comemoração pelos seus 100 anos de existência) também preparou uma bonita exposição com cerca de 20 modelos que fizeram parte da história automotiva (principalmente da Argentina) como a Chevy 1973 e o Chevrolet 1951, carro que foi largamente usado como táxi em Buenos Aires nessa época. Como o espaço é rico em todos os aspectos, tal qual Citroën, Mercedes, Subaru e outras marcas, a GM exibiu a moderna Captiva e o Cruze, seu novo carro global recém-lançado aqui no Brasil.
Festa e (mais) comemoração
O contexto dessa mostra muito bem planejada, como sempre, teve como objetivo agradar a todos os tipos de aficionados pelo antigomobilismo. Várias marcas receberam destaque especial, caso da Jeep (que fez 70 anos), Jaguar (com os 50 anos do lendário E-Type), Bugatti (ícone francês que teve 16 belíssimos modelos expostos) e mais um galpão só com monopostos (Fórmula 1, 2, 3… e outras categorias). Por ali, destaque para alguns bólidos usados pelo inesquecível Carlos Reutemann, como um Brabham BT 15 de Fórmula 3 (1966) e um Brabham BT 36 (de 1972).
Para quem gosta de motos antigas, a exposição é o tipo do lugar que movimenta todos os sentidos. São tantas motocicletas raras que é impossível fixar os olhos em apenas um estande. Uma avenida composta com 300 jóias clássicas exibia tudo o que houve de mais lindo entre os fabricantes Ducati, Kawasaki, Honda, Norton, HRG, JBS, Harley&Davidson, Indian, Yamaha, Suzuki, Gilera, Vespa e Zanella. Havia, por exemplo, um espaço dedicado apenas às motos clássicas italianas, todas elas de uma coleção particular, ambas na cor vermelha… Realmente um sonho inimaginável em mais ou menos 6 mil metros quadrados só com motocas incríveis! E como carros e motos sempre reúnem gente excêntrica (ou mesmo desorientadas do juízo!) o espaço promove diariamente um show de rock muito maluco com roqueiros mais enferrujados que os veículos ali expostos. Imperdível também.
O jeito argentino de ser
Geralmente, exposições de carros antigos são eventos que, apesar de muitas vezes serem abertos ao público (sem cobrança de ingresso) mantém os visitantes um pouco afastados dos veículos. Claro, há peças valiosíssimas e muitos dos colecionadores simplesmente detestam que alguém toque nas suas jóias. Por exemplo: quer irritar algum antigomobilista? Dê um “cascudinho”, um cocorote (por menor que seja) na lataria para enfatizar “como os carros eram feitos com aço mais duro antigamente…” Essa falta de polidez ao se apreciar um carro antigo é algo que não acontece na Argentina e na Autoclásica, vários veículos expostos eram invadidos pelas curiosas crianças que entravam, viam, tocavam, fotografavam e não mexiam em nada.
Para comemorar os 100 anos da Aviação Militar Argentina, um lindo avião Bleriot XI estava exposto nos jardins. Numa curiosa interatividade, um jipe Hummer (do Exército local) disponibilizava uma conversa via rádio com soldados alocados na Base Militar Argentina no Continente Antártico. No final, honrado como “Best of show” da mostra, um lindíssimo Bugatti T57 merecidamente ganhou o 1º prêmio.
A organização do evento, como de costume – numa bonita demonstração de filantropia – destinou a renda do estacionamento para ações sociais em benefício do Hospital Materno Infantil de San Isidro. Se você algum dia quiser conhecer o poder de fogo do antigomobilismo argentino, programe-se e vá visitar a já famosa Autoclásica. O mês é outubro, o clima é friinho, os vinhos são ótimos e os carrões antigos, inesquecíveis… (Fotos: FBA)





