Certa vez, em bate papo automotivo com o velho amigo Neno Canuto, comentamos sobre a beleza e a particularidade do ronco dos motores Ferrari V8 adaptados nos Maserati atuais. Quem já ouviu um deles funcionando de perto não esquece jamais o tal “gargarejo” que evidencia o respirar exato dos 8 generosos cilindros. Essas coisas encantam e, como você sabe, chegam a custar milhares de dólares aqui no Brasil.

Falei nesse ronco especial porque, a partir dessa matéria que escrevi, chegou outro também marcante na minha memória afetiva de motores (se é que isso pode existir…): refiro-me ao som emitido pelo Audi RS 6 Avant Quattro. A música nasce do seu motor V8 de 560 hp e, acredite: é coisa inesquecível, superada apenas por um som feminino que aprecio, evidentemente, impróprio de exibição em hebdomadário tão familiar quanto esse.

Quem é a fera? >> O Audi RS 6 Quattro é o supra sumo da linha “6” da marca alemã e se posiciona um degrau acima do “S6”. Dentro dessa categoria, difícil dizer que algo supere o desempenho dessa station wagon. Com muito amor pra dar, essa perua vem com um motor exageradamente generoso. O V8 biturbo 4.0 TFSi (de 3.993 cm³) doa incríveis 560 cavalos que chegam ao ápice da estupidez semi-controlada quase aos 7.000 rpm! Desde as baixas acelerações, a força é constante e ininterrupta. Você acelera, acelera, acelera… e há muito mais a se explorar ao volante do que a sua razão (ou o que você imagine ser algum talento para pilotar) possam querer extrair. O melhor de tudo é que esse delicioso automóvel não é um touro indomável e sim, até dócil no trato. Mas, cuidado: pressões excessivas no seu pé direito podem causar danos irreparáveis!

Desempenho >> Em números de teste na fábrica, a Audi divulga o zero a 100 km/h em apenas 3,9 segundos. Com limitação eletrônica, ela atinge os 250 km/h. Para quem quer mais emoção, o pacote opcional “Dynamic” aumenta o patamar para 280 km/h e, aos insanos, o “Dynamic Plus” rompe a barreira dos 300, fixando-se em 305 km/h de velocidade máxima, tudo isso chegando a números bem razoáveis de consumo em médios 9 km por litro de gasolina pura (sem álcool), oriundos da ajuda de mecanismos auxiliares ´start-stop´ e outro de desativação de cilindros quando em velocidade constante. O V8 vira um 4 cilindros temporariamente e, em centésimos de segundo, volta a descarregar a santa fúria pelos coletores com as 8 narinas bem ventiladas. Coisa de louco, meu amigo…

Mais conforto e ótimo pacote tecnológico >> Com uma configuração absolutamente focada no luxo e desempenho, pouquíssimos são os opcionais. Esse Audi RS 6 já vem com ar-condicionado digital, som da renomada Bang&Olufsen (15 alto-falantes e 1.200 watts de potência), faróis de gás xenônio, sistema de monitoramento de pressão de pneus, piloto automático e demais controles auxiliares de condução, como por exemplo, tração, estabilidade, freios ABS com EBD e diversas configurações de ajustes de suspensão, coisa essencial num veículo como esse.

A transmissão de 8 velocidades é automática do tipo “Tiptronic” e as trocas são as mais rápidas que já ouvi falar nos últimos 11 anos abaixo (e acima) da linha do Equador. Você escolhe: modo “D” (Drive) ou “S” (Sport). Há muita diferença entre as duas, mas ambas refletem a esportividade como o conceito principal desse carro. Todo o conjunto de força é distribuído, aliás, magnificamente bem distribuído pela tração “Quattro”, um 4X4 permanente com compensações automáticas de deslocamento de força, captados pelo modo de conduzir. O pé direito trabalha e a computação de bordo equaliza o melhor modo de deslocar a massa da carroceria, interpretando o estado de espírito de quem está guiando o exemplar alemão.

O que mais posso dizer? >> Carros importados e especiais como esse custam uma fortuna no Brasil. Até o fechamento dessa edição a Audi não havia divulgado o preço dele aqui no país, mas certamente enquadra-se num cardápio similar à linha AMG da Mercedes-Benz.

Esse RS 6 Avant é o primeiro Audi a sair com suspensão pneumática, detalhe que, associado aos moderníssimos amortecedores com linhas de condução de óleo, aliviados por válvulas eletromecânicas, equaciona o veículo de maneira primorosa em qualquer condição de dirigibilidade. Evidentemente, esse é quase um carro de corrida e, como todo bom alemão, tem suspensão firme e pouco adequada ao Brasil das pistas com crateras. No modo “Dynamic”, as bolsas de ar rebaixam a carroceria em 20 mm e, como dito, com o alívio da pressão do acelerador e da baixa solicitação do sistema de direção, tudo volta ao normal. Só que o normal desse carro é a coisa mais anormal, adocicada e sedutora que você pode experimentar, algo como um ópio que elimina a dor, um vício que não estraga o corpo, um vinho que revigora a alma.






