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CLÁSSICO: Osca 1600 SP, a joia rara dos irmãos Maserati

Em 1914 os irmãos Maserati (Bindo, Ettore, Ernesto e Alfiere) fundaram uma empresa automotiva de grande personalidade. A marca chancelada com o sobrenome desses engenhosos italianos, até hoje é adorada mundo afora. Em 1947 entre a Via Emilia e Bolonha, os Maserati consideravam um novo começo no mesmo ramo. Eles haviam vendido a empresa e, após cumprir um contrato de 10 anos trabalhando na antiga marca que levava o nome da família, eles deixavam, definitivamente, Modena pra trás.

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O novo projeto (que não mais podia ter o famoso sobrenome) chamar-se-ia “O.S.C.A”: Officine Specializzate Costruzioni Automobili-Fratelli Maserati. O objetivo do desafio era construir bólidos de corrida com pequena cilindrada e com um nível de qualidade construtiva bem elevado. A fábrica começou em San Lazzaro de Bolonia com dez empregados. Depois, saltou para trinta funcionários sem contar com o efetivo da família. Colocaram o engenho para moer e, no total, construiriam cerca de 140 carros de corrida e outros tantos para serem usados no dia a dia. Depois da morte da figura principal da marca, Alfiere Maserati, Bindo, Ettore e Ernesto seguiram adiante, com este último sendo nomeado novo presidente da companhia.

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Os irmãos mantiveram o mesmo pique e Ernesto passou a desenhar tudo dos novos carros, desde a carroceria, o motor, até os detalhes da suspensão. Em 20 anos de vida os bólidos da marca (fabricados com perfeição) conseguiram êxitos extraordinários. Um deles de valor especial: a corrida norte-americana “12 Horas de Sebring” foi vencida em 1954 com Stirling Moss e Bill Lloyd a bordo de um Osca MT4 da equipe Cunningham sobrepondo-se ao poderoso Lancia D24 de Porfirio Rubirosa e Gyno Valenzano. Nessa dura prova, cinco dos seis Oscas inscritos terminaram a corrida comprovando a alta resistência ao esforço em exigência máxima. Eles venceram até as temidas Ferraris!

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Outras vitórias >> Os bólidos da Osca, leves, com boa potência e aerodinâmica bem trabalhada, foram mais longe nos pódios: ganharam em Le Mans (1958) e obtiveram mais cinco triunfos em Sebring entre 1955 e 1962, sem contar o brilho nas provas Coppa d´Oro delle Dolomiti, Giro delle Calabrie e Giro della Toscana. Equilibrados, com suspensão independente nas quatro rodas e com motores 1.500 e 2.000 cm³ equipados com comandos desmodrômicos, as máquinas da Osca incomodavam os concorrentes. Chegaram, por exemplo, a colocar meia hora (!!) de diferença na famosa Mille Miglia, corrida entre Brescia e Roma, na frente de Porsches e…, ironicamente, de alguns Maseratis.

Mais recordes >> O Osca 1500 TN arrebatou nada menos que 18 recordes mundiais de velocidade retirados da alemã Porsche e da inglesa MG no deserto de sal de Bonneville. Os motores Osca ficaram tão respeitados que foram utilizados na Fórmula Jr em 1960 e 1961.

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Filho único >> Após o sucesso do Osca 1600 GT, os Maserati pensaram em construir um bólido exclusivo para provas importantes, como as “24 Horas de Le Mans”. Daí, eis que surge de alguma prancheta empoeirada da fábrica, o Osca 1600 SP, veículo que estivera adormecido por anos em puro ostracismo, ninguém sabe por qual razão.

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As novidades >> O esportivo, apesar de já anteriormente parido e, praticamente pronto para rodar, necessitava de novos conceitos para entrar no mercado. Logo foi providenciado um chassi tubular (inovação na Osca) e detalhes maiúsculos em alumínio na composição da carroceria. O 1600 SP precisava ser rápido e rígido nas curvas. Ganhou suspensão independente, freios a disco nas quatro rodas e teve um novo motor de 1.600 cilindradas pronto para suportar desaforos em provas de longa duração. A unidade de 4 cilindros em linha e dupla árvore de comando, vinha com periféricos interessantes para a época, como dois carburadores Weber 42DCOE que ajudavam a unidade a chegar aos 142 cv de potência aos 7.500 rpm. A caixa de câmbio (herdada da Fiat) tinha 4 marchas sincronizadas, mas com relações feitas sob medida. O conjunto completo pesava apenas 698 kg e a relação peso-potência de 4,91 kg/cv, deixava-o pronto para qualquer batalha!

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Restante da história >> Ao contrário do que muita gente pensa, Ernesto Maserati foi o desenhista dessa obra prima e não o renomado designer Zagato, que ganhou a fama. Zagato, sim, produziu 20 unidades para a homologação e as mandou de volta à fábrica da Osca com um logotipo “Z” nas carcaças, o que confundiu a cabeça de alguns jornalistas mal informados que publicaram como sendo o famoso designer, o ´pai da criança´. O equívoco, segundo o engenheiro Alfiere Maserati Jr. (filho de Ernesto e vivo até hoje), gerou fúria dentro da família.

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O fim sem começo >> O lindo Osca 1600 SP foi montado com painéis de alumínio e suas guelras laterais podiam ser abertas para melhorar a ventilação interna. O carro ficou pronto, mas, apesar dos ótimos testes de pista, esse maravilhoso esportivo jamais competiu e o seu potencial nunca pode ser explorado devidamente, jogando-o, como tantos outros bons carros que tiveram a mesma sina, num recanto histórico dos veículos atormentados para sempre e que deixaram no ar a dúvida entre aquilo que poderiam ter sido e jamais foram.

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Porque isso aconteceu? >> Os irmãos Maserati, prudentes como sempre, perceberam que em meados dos anos ´60 esse tipo de negócio com veículos GT somente para corridas já não era tão rentável, daí, decidiram aceitar a proposta da marca Agusta pela maioria das ações. E assim foi feito: o Conde Domenico Agusta, dono de um império de motocicletas e helicópteros com o seu sobrenome, assinou o cheque e, num primeiro ato majoritário, proibiu a utilização do Osca 1600 SP em corridas até que o projeto fosse readaptado para esse belo veículo ser vendido como carro de rua. O problema é que o Conde Agusta faleceu em 1971, sepultando consigo qualquer possibilidade desse espetacular veículo entrar em cena…

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De novo na Itália >> Comprado do espólio da fechada fábrica da Osca por Alfiere Maserati Jr., esse incrível e solitário automóvel reapareceu ao mundo no Concorso d´Eleganza Villa d´Este em 2012. O desconhecido – modelo único – assombrou os visitantes do evento às margens do Lago de Como, na Itália, célebre por desenterrar raridades. Poucos sabiam de sua singular existência e muito menos ainda que ele havia sobrevivido a essa espécie de aborto metálico. Desde os faróis carenados, as rodas traseiras cobertas, tudo é deliciosamente confeccionado com bom gosto. As formas lembram o Maserati 450 S e até a Alfa TZ Zagato, ambos posteriores ao 1600 SP. Simplificado por dentro, o cockpit foi forjado em alumínio polido e o painel, tipicamente esportivo e espartano, dispensava o velocímetro, oferecendo somente ao piloto as leituras de temperatura de água, conta-giros, pressão e temperatura do óleo.

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Esse carro que nunca existiu atingia estonteantes 240 km/h! Muito mais lento que isso, quase imóvel em relação ao passar dos anos, o Osca 1600 SP parece ter surgido do nada, simplesmente para servir de assinatura derradeira da grande obra dos irmãos Maserati. (Fotos: divulgação)