buru-rodas

Muita gente “tá se achando” ao volante, mas a estatística discorda…

Confesse: você se acha um ótimo – ou ótima – motorista, correto? E você não está sozinho nessa pista. Quando perguntadas em pesquisa como se avaliam como motoristas em relação à média, a maioria das pessoas responde “acima da média”. E isso em vários países. Verdadeiro paradoxo matemático: se a maioria está acima da média, cadê a média?!

Mas relaxe, não é culpa sua, é o conhecido efeito Dunning-Kruger. Esses dois psicólogos norte-americanos aí, com nomes que poderiam até ser marca de sorvete europeu, descobriram esse viés cognitivo – algo como 80% das pessoas se acham acima da média em habilidades nas quais não são experts. Os outros 20%? São os experts!

E no trânsito, essa mesma perspectiva aparece em cada esquina ou km da estrada. O cara que acha que tem reflexos de piloto de Fórmula 1 manda uma mensagem no celular “rapidinho”, porque tem “controle total do carro”. A mulher que retoca a maquiagem no semáforo tem certeza de que “dirige melhor que muito jovem por aí”. E o sujeito que nunca pensou numa distância de frenagem na vida, cola no carro da frente a mais de 100 por hora, ou se joga naquela curva que dá pra fazer “sussa” – até não dar. Spoiler: a física não negocia, e o coeficiente de atrito asfalto/pneu não dá a mínima para a sua autoconfiança. Dado rápido: distância de parada a 100 km/h: de 40 a 80 metros, dependendo do carro e do piso. Isso sem contar o tempo de reação, que vai somar uns bons metros nisso aí, já que a 100 km/h percorremos quase 28 metros a cada segundo.

Essa tendência de ´se achar´ acima da média cria uma ilusão perigosa: quanto mais alguém acredita dominar uma situação, menos percebe os próprios erros. Aí mora o perigo, meu amigo… Estudos mostram que boa parte dos acidentes não acontece por falta de habilidade pura e simples, mas por distração ou excesso de confiança mesmo. Dunning-Kruger na veia!

Ou seja, dos “três ins” da falha humana – o inábil, o inatento ou o incauto – o que menos pesa é o inábil! Assim, não é coincidência que distração, excesso de velocidade e decisões impulsivas sejam as maiores causas de acidentes de trânsito no mundo. E olha que a Engenharia automotiva até tenta proteger o motorista de si mesmo: os sistemas ADAS (sistemas avançados de assistência ao condutor, na sigla em inglês) são uma das tecnologias que mais avançam: além dos já familiares freio ABS e controles de tração e estabilidade, vão se popularizando piloto-automático adaptativo, frenagem autônoma, assistente de permanência em faixa, alertas de ponto-cego e de tráfego traseiro.

Além dos sistemas ativos ADAS, a Engenharia também trouxe os esquemas passivos pós-colisão, aqueles que vão reduzir os danos depois do acidente: cintos de segurança, airbags, travamento de linha de combustível, frenagem pós-colisão e, claro, deformação da carroceria projetada para minimizar ferimentos. Mas… e aí, meu colega no clube “acima da média”: você acha que o “homo dunning-krugensis” consegue evoluir para um motorista mais prudente ou é melhor acelerarmos a evolução do veículo autônomo? (Autor dessa coluna: Daniel Gama Florencio; engenheiro mecânico com pós-graduação em Marketing. Trabalhou 30 anos na indústria automobilística com transmissões manuais e automáticas, com passagens em chassis e carroceria e atuou, também, no mesmo ramo, nos Estados Unidos e Alemanha / Imagem: Microsoft Designer Creator IA / Instagram: @acelerandoporai.com.br)