buru-rodas

Já ouviu falar no estranho ´mercado automotivo cinza´ da China?

Pelas minhas contas, venho acompanhando o setor automotivo brasileiro e global (com lente de aumento) há, pelo menos, 35 anos. Já vi todos os tipos de esquisitices, desde manobras antiéticas de grandes marcas que levaram alguns de seus diretores à prisão, posturas arrogantes de presidentes de montadoras, assessores de imprensa incompetentes e outros extremamente atenciosos (como Marco Antônio Lage, ex-Fiat, por exemplo), e mais um caminhão de notícias verdadeiras e falsas.

Vi carros ótimos (como o Renault Mégane e Ford Focus) se tornarem modelos injustiçados por baixas vendas e outros automóveis que, aparentemente não tinham futuro, se consolidarem como casos de sucesso. Além disso, presenciei clientes revoltados com péssimos atendimentos em concessionárias, assim como vi muita gente processando fabricantes de veículos, por se sentirem lesados ao verem os seus carros recém comprados, saírem de linha após algumas semanas. Enfim… o mundo automotivo sempre tem na manga alguma surpresa prestes a ser exibida, impressionando até aos profissionais mais experientes.

Desde 2019 existe uma estranheza no segmento automotivo ligado às exportações de veículos na China, que já foi apelidada pela mídia especializada lá na Europa, como “o mercado cinza chinês”. A prática é, inicialmente ininteligível, mas traz no seu contexto uma clareza absoluta de propósitos.

A coisa funciona desse jeito: logo que um carro novo sai da linha de montagem, algum exportador (seja ele uma empresa ou apenas um negociante individual) compra esse carro zero km diretamente do fabricante ou de uma concessionária, emplaca esse veículo e, imediatamente, apesar dele continuar sendo um carro novo e ainda sem uso, coloca-o à venda para ser enviado ao exterior como um ´automóvel usado´.

Até aí, tudo bem, pois, após o emplacamento o veículo mesmo sem uso, passa a ser considerado como ´seminovo´. Mas o ponto fulcral dessa manobra não reside nessa simples operação de compra e venda que, fatalmente, vai achar algum interessado pelo chamado veículo ´usado zero quilômetro´ em alguma parte do mundo. O fim do contexto tem um encerramento realmente esquisito, que reside numa maquiagem dos números de vendas de veículos na China. E tudo isso é até incentivado pelo próprio governo chinês…

Do ponto de vista econômico local, não faz o menor sentido ver fabricantes, concessionários e negociantes registrarem vendas e anotarem a receita nos seus livros-caixa. Esse mecanismo faz parte de um exigente sistema governamental – que instiga a concorrência interna e exige a apresentação de números de vendas cada vez mais altos – mas a prática adotada em 2019 está começando a apresentar efeitos colaterais de consequências ainda desconhecidas.

Esse fluxo de vendas dos usados-zero km tem gerado uma briga acirradíssima dentro do mercado chinês que, há bastante tempo, já tem uma produção bem maior do que a demanda. Carros movidos a gasolina são a maioria nessas negociações, pois o mercado chinês é mais simpático aos elétricos do que aos veículos a combustão. E esse excesso de produção precisa ser ´desovado´ o quanto antes, a qualquer custo, sob pena de haver um colapso automotivo interno na China.

Nesse país gigante e com um regime fechado – apesar da aparência comercial contrária – algumas províncias da China têm incentivado essa prática de exportações de veículos ´usados-zero km´ a fim de obter algumas vantagens governamentais, como o acesso ao crédito e novos financiamentos. A prática carrega em si, também, a possibilidade de driblar algumas tarifas de importação impostas por praticamente todos os países do mundo, com ênfase para os EUA e integrantes da União Europeia.

No frigir dos ovos, seis anos após o início dessas operações maquiadas de exportações, já começam a acontecer movimentos internos contrários, como foi o caso de Zhu Huarong (presidente da montadora chinesa Changan) que colocou a boca no trombone solicitando uma ação firme do governo para frear a prática, sob pena das imagens das marcas chinesas no exterior ficarem arranhadas, prejudicando outros tipos de negociações. O presidente da montadora chinesa GWM também reclamou.

A questão é que esses volumes gigantescos de exportações de carros usados que, na verdade, não são usados, já tomaram uma proporção tão ameaçadora que os próprios chineses admitem que números como o PIB já podem ter sido afetados por isso, ou seja, não espelham a realidade econômica daquele país. E esse processo caótico já está gerando a aniquilação de marcas pequenas com redes de concessionários mais frágeis. É tudo bem estranho mesmo; e de difícil entendimento. Coisa parecida com uma cobra venenosa que se assusta com o movimento da própria cauda e crava os dentes nela mesma… (Imagem: Microsoft Designer Creator IA / Instagram: @acelerandoporai.com.br)