buru-rodas

McLaren deve levar o título desse ano, mas isso não me importa muito. O que lembrei com alegria hoje (20/4) foi a 1ª Pole Position de Ayrton Senna

Há exatos 26 anos, brasileiro conquistava a sua 1ª Pole em Portugal
Há exatos 26 anos, brasileiro conquistava a sua 1ª Pole em Portugal

Outro dia troquei uns eMails com um jovem fã da Fórmula 1 que, provavelmente, não me entendeu direito sobre uma tal saudade que eu disse sentir da fase áurea entre os anos de 1980 e 1994. Considero esse intervalo um dos mais profícuos, principalmente por comportar no grid nomes como Ayrton Senna e Nélson Piquet.

Além desses dois monstros sagrados, outras feras dividiam a pista sempre com chances reais de vitórias, proporcionando aos espectadores um duelo que envolvia carros com pouca tecnologia, potência assustadora (cerca de 1.200 hp contra os médios 750 cv de hoje) e muitíssimo talento e coragem para domar charutinhos sem freios ABS ou controle de tração. Só para lembrar alguns: Alain Prost; Eddie Cheever; Gerhard Berger; Derek Warwick; Niki Lauda; Andrea De Cesaris; Nigel Mansell; Stefan Johansson; Patrick Tambay; Riccardo Patrese; Keke Rosberg; Elio De Angelis; Michele Alboreto; Jacques Laffite e Martin Brundle, este último citado pelo próprio Senna como um dos oponentes mais duros que ele já enfrentou.

O belo e lendário Lótus preto soltando fogo pelo nariz!
O belo e lendário Lótus preto soltando fogo pelo nariz!

Abaixo da maioridade, em 1987, saí de Maceió com autorização dos meus pais e do Juizado de Menores para assistir ao GP Brasil no incrível autódromo de Jacarepaguá, Rio de Janeiro. O domingo ensolarado parecia perfeito para uma vitória brasileira, mas quem ganhou foi o francês Prost seguido por Piquet em 2º. Se não me engano, Senna fez 50 das 61 voltas e abandonou com problemas no motor.

Esta foi a primeira corrida da minha vida e ficou marcada por alguns detalhes:

o carisma transbordante de Ayrton Senna, o talento acima da média de Nélson Piquet e em terceiro (e mais marcante), o ronco diferente dos motores de todas as equipes. Naquele tempo o regulamento da FIA era, a meu ver, mais aberto e por isso passivo de múltiplas possibilidades de acertos que diferenciavam os carros. Havia no ar uma atmosfera de competição muito mais humana do que hoje em dia. Fecho os olhos e me recordo perfeitamente do ronco grave do McLaren-Porsche de Alain Prost, carro praticamente imbatível naquela temporada e do design distinto entre as máquinas. Pareciam, sim, gladiadores prontos para o combate. Os bólidos da Fórmula 1 realmente eram carros de corrida, espécie de cápsula suicida onde o piloto, ao vestir essa armadura, exalava um certo ar de herói, de ousado artista de circo, como se fosse um astronauta a decolar ao inimaginável mundo do espaço.

Na chuva, habitat predileto de Ayrton Senna
Na chuva, habitat predileto de Ayrton Senna

Acho que comecei a assistir corridas de Fórmula 1 em 1976 ao lado do meu pai, torcendo pelo Emerson Fittipaldi. Como disse, vivi de perto essa fase até 1994 (data da morte de Senna) e, mesmo quando ele se foi e Piquet saiu de cena, continuei a prestigiar as provas pela TV e outras vezes ao vivo, já como jornalista. A última que fui (há uns 3 anos lá em São Paulo) me fez repensar esse belo esporte como uma categoria que (pressionada pelos milhões de dólares em patrocínios, direitos autorais de transmissão e um regulamento cada vez mais trancado e que pouca margem de criatividade abre entre os concorrentes) talvez tenha se tornado uma disputa enfadonha, demasiadamente plástica, sem sal.

Antigamente, os carros de Fórmula 1 tinham volantes redondos, câmbio manual e, talvez uns 3 ou 4 botões no cockpit para controlar a comunicação via rádio, pressão do turbo e uma ou outra regulagem. A essência, no entanto, era puramente humana, mecânica, manual. Para quem curte motores, barulho de escapamento e cheiro de gasolina, era um espetáculo incrível ver o trabalho dos pilotos nas trocas de marchas, reduzidas de velocidade e frenagens inimagináveis sem o auxílio de um sistema ABS. Os pés, os braços e a coragem davam o tom das provas.

O grid da Fórmula 1 hoje mais se parece com um bando de abelhas gigantes com um motor de ronco feio entre as asas: tudo praticamente igual, diferenciado-se em milésimos de segundos num espaço entre a 1ª volta e a bandeirada final. A bagagem tecnológica praticamente faz metade do trabalho dentro do carro.

Quando me lembro do Rubens Barrichello liderando a prova e abrindo passagem para Michael Schumacher vencer o GP da Áustria de 2002 ou do Felipe Massa sendo ultrapassado por Fernando Alonso (sem reagir) já na entrada dos boxes (abril de 2010, GP da China), é que cada vez mais aumento a minha admiração pelo Ayrton Senna e Nélson Piquet, que simplesmente não admitiam chegar em segundo lugar e, mesmo quando não venciam, mostravam amor pelas corridas.

Acho que pelas provas que já vi esse ano, o título de 2012 deverá ficar nas mãos da McLaren. Está tudo tão óbvio! RBR não rende a mesma coisa do ano passado (graças a Deus, pois matou o campeonato de 2011 pela superioridade monótona), a Ferrari está tristemente desacertada e a Mercedes (de Rosberg e Schumacher) até que melhorou muito no do ano passado pra cá, mas nada que assuste a concorrência até agora. Para finalizar, uma homenagem ao Senna: o carro preto que você vê nas fotos é o famoso Lotus/Renault, bólido que deu ao brasileiro a sua 1ª Pole Position das 65 conquistadas na carreira. Com o tempo de 1min21s007, no dia 20 de abril de 1985 (há 26 anos), em Estoril (Portugal), Ayrton Senna começava a mostrar ao mundo o brilho da sua estrela, coisa que atualmente, parece que – infelizmente – não existe mais. Isso é que dá saudade… I FA