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Pegaso Z102B: espanhol de sangue quente!

Provavelmente, você jamais ouviu falar em Wilfredo Ricart, mas, graças a este projetista hispânico, o mundo pôde desfrutar de um dos mais interessantes carros esportivos dos anos ´50. Auto-exilado de sua terra natal na época da Guerra Civil espanhola (1936-39), Ricart fugiu da confusão e foi morar na Itália. Por suas notáveis habilidades, logo foi contratado pela Alfa Romeo tornando-se diretor técnico da marca. Por lá, trabalhou ao lado de um engenheiro italiano (este sim, bem famoso), chamado Enzo Ferrari.

Proposta ousada >> No final da década de ´40, retornando à Espanha firmou-se como funcionário da ENASA (Empresa Nacional de Autocamiones S/A). Ali, o ousado Wilfredo Ricart, ao ditador Francisco Franco fez uma proposta de construção de um superesportivo. Vislumbrando a possibilidade de boa propaganda política com o projeto, Franco topou e deu autonomia a Ricart para fazer o carro. A antiga fábrica da Hispano-Suiza foi a base principal utilizada pelo projetista para o desenvolvimento do modelo.

Mão na massa >> Ricart era especialista na construção de motores. Aproveitando o seu talento nato de engenheiro e os estágios perto de Enzo Ferrari e da Alfa, a partir de um pequeno propulsor de 2,5 litros (2.500 cm³), criou um V8 de 175 cv. Depois, aperfeiçoados, os motores ganharam variações com 2.8, 3.2 litros, atingindo até 360 hp! O Pegaso Z102B era quase 100% espanhol, com exceção dos carburadores da marca Weber.

Sofisticação >> A máquina espanhola tinha motor produzido em alumínio e (detalhe patenteado pela Alfa Romeo) também possuía válvulas preenchidas por sódio para uma melhor refrigeração. Segundo as publicações da época, apesar de feito para ser utilizado severamente em altas rotações, o Pegaso tinha resistência e alta durabilidade. Exagerado em vários aspectos, o cárter desse motor tinha capacidade para 12 litros de óleo lubrificante e o seu radiador de água também era grande, comportando 20 litros. Numa época em que a maioria dos automóveis tinha caixa de câmbio com 3 marchas, o Pegaso Z102B surgiu com uma transmissão de 5 velocidades montada em cima do eixo traseiro, solução utilizada até hoje em famosos esportivos, como a Ferrari 550 Maranello e os GM´s Corvette.

Política e negócios… >> O ditador Franco acreditou, de fato, no projeto de Wilfredo e, apesar de o veículo não ter decolado em vendas, chamou bastante atenção ganhando corridas frente à outras feras europeias, como Ferrari, Jaguar e Aston Martin. Um dos problemas do Pegaso provavelmente foi o fato dele ser muito avançado para a época. Num Salão de Paris da década de 50, o engenheiro Ricart mandou construir um Pegaso Z102B todo em plástico transparente, justamente para exibir o ótimo contexto tecnológico por baixo da carroceria.

Estilo >> Falando em carroceria, percebe-se que não faltou ao projeto charme e elegância. Alinhado aos semi-ícones daquele tempo, o Pegaso já nasceu bonito, já que as encomendas das carrocerias foram feitas às renomadas Saoutchick (França) e Superleggera Touring (de Milão). Os melhores designers do mundo traçaram lindas versões cupê berlinetta e conversíveis, ambas com variações principalmente na traseira.

Brilho rápido >> O Pegaso Z102B foi fabricado entre 1951 e 1958; e sua vinda ao mundo não passou incólume. Primeiro, pelo contexto de como e aonde foi fabricado e, segundo, pela ousadia de um engenheiro que colocou energia num sonho transformando-o em realidade. Em 1953, por exemplo, ele era o carro de passeio mais rápido do mundo, além disso, inegavelmente, tinha um lindo estilo.

Curiosidades >> 1) Apenas 86 unidades do Pegaso foram produzidas, por isso, hoje são raríssimos e muito caros. Uma versão conversível pode chegar a valer US$ 1,5 milhão!

2) Contrário aos ideais de Francisco Franco em apoiar o sonho de Wilfredo, num momento político insustentável na Espanha, um interventor federal acabou com a dispendiosa brincadeira de Ricart, mandando destruir todas as peças de reposição, ferramentas e desenhos na fábrica.

3) A posição das marchas do Pegaso Z102B era completamente invertida. A 5ª marcha, por exemplo, era próxima à perna direita do condutor (na posição da 2ª). A grade de marchas era um espelho exato do que é conhecido no nosso mercado.