Pode-se dizer que o Toyota 2000 GT nasceu de um impulso de autoafirmação da indústria automotiva japonesa. Os executivos da área sentiam necessidade de impor-se ao mercado mundial como legítimos fabricantes de veículos, e não como um conglomerado que apenas copiava ideias. No início da década de ´60 os nipônicos queriam provar ao mundo que sim, podiam construir esportivos capazes de agradar tanto ao divertido mercado norte-americano, quanto aos exigentes consumidores europeus.

A Toyota, já milionária naqueles tempos, a partir da avaliação de virtudes e defeitos de vários esportivos ocidentais famosos, como por exemplo, o Porsche 911 e o Jaguar XK, criou o interessante 2000 GT. Com carroceria compacta, e descaradamente similar à estética da Jaguar, ele surgiu no melhor estilo hardtop coupé para fazer frente a modelos já consagrados.

Joint venture >> Aliada à Yamaha (outra competente empresa japonesa, fabricante de instrumentos musicais, motocicletas e motores), a Toyota fez uma espécie de garimpo de conceitos mecânicos, adquirindo um respeitável cabedal de soluções para agregar ao projeto que era tocado por uma minúscula equipe. E assim nasceu o 2000 GT, um esportivo com motor dianteiro, dois lugares e tração traseira. A receita era boa e as chances do plano dar certo eram aparentemente grandes, mas não foi isso que aconteceu.

Momento propício >> O Salão do Automóvel de Tóquio, edição de 1965, mostrava-se como o instante exato para exibir o 2000 GT. E assim foi feito. A exposição do modelo (ao menos para o mercado interno) serviu para alguma coisa, forçando a indústria local a revisar a forma de pensar e perceber novas possibilidades de negócios.

Bem feito, bonito e… caro demais >> Elogiado pela imprensa especializada da época, o 2000 GT tinha suspensão confortável, mas não excessivamente macia a ponto de prejudicar a alma esportiva. O acabamento interno era primoroso, contando até com madeira para dar charme ao ótimo conjunto de instrumentos de medição, tudo feito de maneira artesanal pela Yamaha, que montava e finalizada todo o automóvel. O problema é que o valor pedido na época (quase US$ 7.000) era mais elevado do que os seus principais concorrentes: Porsche e Jaguar.

Quem criou? >> Há uma dúvida histórica que paira no ar quanto à criação das formas do Toyota 2000 GT. O designer alemão Albrecht Goertz rivaliza com Satoru Nozaki como os ´pais da criança´. É inevitável a comparação do veículo com a família XK da Jaguar (nascida antes), mas, aceita-se o estilo justamente porque o mesmo seguia uma tendência comum naquele momento. O 2000 GT é um bonito carro, tendo na dianteira do conjunto um exagero estilístico que beira ao mau gosto, mas não chega a isso. Quando os faróis escamoteáveis estão acionados, a frente do carro torna-se mais raivosa e agradável, adequada à proposta esportiva.

Mecânica >> A potência de (apenas) 150 hp, hoje em dia pode até ser considerada ridícula para equipar um bólido com pretensões a concorrente de um Porsche, no entanto, em 1965, esse patamar era respeitável. A unidade de ferro fundido e 2 litros (2.000 cilindradas) herdada do Toyota Crown, tinha 6 cilindros, duplo comando de válvulas e câmara de combustão hemisférica. A Yamaha deu um trato fino nesse propulsor, refazendo (e decorando lindamente) o seu cabeçote. O ronco deste motor de seis cilindros é deliciosamente refinado e sedutor. Evidentemente, os 150 cavalos nunca empolgaram, mas o trabalho dos três carburadores Solex 40 oxigenando os coletores cuidadosamente trabalhados, culminaram num equilíbrio de impressionar.

Destino cruel >> Difícil decifrar os motivos que impediram esse ótimo carro de decolar comercialmente. O alto preço talvez tenha sido o maior dos empecilhos, já que os melhores esportivos americanos e europeus já faziam bastante sucesso e, em vários aspectos, estavam consolidados no segmento.

O 2000 GT foi o primeiro carro japonês com freios a disco nas quatro rodas. Tinha um conjunto respeitável, design moderno, confiabilidade técnica no mesmo nível dos outros, mas fracassou nas vendas. Feitas individualmente, apenas 351 unidades foram construídas pela rápida joint-venture entre a Toyota e a Yamaha no período de 1964 a 1970. Pelo número reduzido de carros feitos, o 2000 GT hoje é considerado um esportivo clássico e, provavelmente, é o modelo japonês mais cobiçado para se colecionar.

Na última década, leilões de antigos movimentaram algumas unidades desse carro e um deles (original, sem restauração) foi negociado por quase US$ 1,3 milhão! No auge da sua evidência, o Toyota 2000 GT chamou a atenção de alguns preparadores de carros de corrida e chegou a participar de algumas provas com relativo sucesso. O maior deles, a vitória na “Fuji 24 Hour Race”, em 1967. O lendário americano Carroll Shelby também levou três unidades para correr nos EUA.

O pico da fama desse carro que quase não existiu, ocorreu no filme “You Only Live Twice”, um dos clássicos do agente James Bond, que guiou uma bela versão conversível. Essa que seria a cereja do bolo (por ser a mais bonita), jamais entrou em linha de produção… (Fotos: divulgação)






