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Por que novas noivas preferem ‘velhos’ carros

É só pôr as rodas nas ruas e o Impala 1964 vira o centro das atenções. Olham os que entendem de carro, olham os que não entendem. A todos, entretanto, o carburador de quatro gargantas parece bradar a mesma máxima nostálgica de Luiz Fernando Veríssimo: “O futuro era muito melhor antigamente…”

(Foto: @3f.photo)

Ainda que filmes como A.I. – Inteligência Artificial (Steven Spielberg, 2001) sugerissem um futuro em que a tecnologia invadiria todos os âmbitos da existência, tínhamos uma leve esperança de que o amor permaneceria imune aos seus algoritmos. Pois é, estávamos enganados. Os matches são calculados por IA; os encontros, mediados por telas; os desejos, filtrados por algoritmos. Surgiram os “namorados de IA”, os bebês hiper-realistas de silicone. Dia após dia, confirmamos aquilo que Zygmunt Bauman chamou de “modernidade líquida”: vínculos intensos e fugazes, conexões profundas que evaporam na velocidade de um swipe.

(A noiva Caroline Camargo, seu pai e o Impala 64. / Foto: @3f.photo / Maquiagem: Cristina Blanco – @eacrisquefaz)

Não é que sonhemos com um “felizes para sempre” (um pouquinho talvez). Não somos tão românticos, tampouco tão exigentes assim. Também não queremos os laços sufocantes de outros tempos, quando a devoção era mais à obrigação de permanecer juntos do que ao afeto em si.

Falamos de um amor que, ao menos, resista à lógica do mercado – ao que o filósofo Renato Noguera chama de “neoliberalismo dos afetos”: um cenário em que relações humanas se tornam obsoletas como aparelhos eletrônicos, substituídas a cada atualização de desejo pelo modelo mais recente, pelo parceiro mais funcional. Talvez seja precisamente contra essa lógica do amor como mercadoria que carros clássicos – Impalas, Galaxies, Opalas, Dodges – sejam hoje tão escolhidos pelas noivas para conduzi-las ao altar. Pesquisas internacionais sobre tendências de casamento indicam que modelos vintage e clássicos lideram entre os veículos mais requisitados.

“Sou apaixonada por carros antigos, e meu marido também. Em nosso casamento, tudo teve um toque vintage”, conta a publicitária e vocalista da banda Weedevil, Caroline Camargo (foto). Ela engrossa as estatísticas das noivas que preferem os “velhos” e clássicos, como o Impala amarelo (das fotos) que a conduziu ao seu casamento.

(Foto: @3f.photo)

Se os modelos tecnológicos ficam cada vez mais sofisticados, quando se trata de amor, o que a maioria de nós não quer é sucumbir à lógica do descartável. Queremos aquilo que pode ser descoberto e redescoberto, dia após dia, naquilo que simplesmente é. Há algo do amor no ato de pilotar um Impala. Por exemplo, sentir o peso do motor, interpretar o ronco do V8, reconhecer que potência sem controle é um desastre anunciado. O carburador lembra qualquer conversa que importe: escutar sem tentar colonizar o outro com suas verdades.

E os bancos de couro, que guardam o calor de dias longos e o frio de manhãs difíceis, nos ensinam que toda relação atravessa estações – sem a ilusão de um clima sempre ameno, mas com a consciência de que cada mudança traz sua própria beleza.

E o airbag – ou melhor, a ausência dele — nos lembra que tudo na vida é risco. Amar, dirigir, existir: quase tudo depende de reflexo, atenção e uma boa dose de misericórdia divina. A manutenção não mente: é cara, constante, exige presença diária e mãos que sabem onde apertar, onde afrouxar, onde simplesmente esperar. Porque nós, como carros antigos, sempre damos defeito. Ficamos vulneráveis. Chegamos com arquivos de dores de fábrica, caches existenciais que nunca serão completamente limpos. Envelheceremos também. E que encanto nos restará, senão nossa trajetória de vida que, por si só, permanece um mistério indecifrável: o que conhecemos e ignoramos de nós mesmos, do outro, ou do que nos tornamos juntos.

Há sempre algo a descobrir – e a redescobrir – até o fim dos dias. Um carro nos leva de um ponto a outro. O amor pode nos levar do outro a nós mesmos.

(Fotos: @3f.photo  / Maquiagem: Cristina Blanco – @eacrisquefaz / O conteúdo da coluna de Adriana Bernardino é de inteira responsabilidade da sua autora)