buru-rodas

Salão do Automóvel de São Paulo 2025 exibe uma lógica que já foi piada no passado…

Uma das mostras automotivas de maior relevância do mundo (maior e mais importante da América Latina) o Salão do Automóvel de São Paulo – promovido pela Anfavea, associação dos fabricantes – passou por um indigesto intervalo de sete anos. A causa do “ponto morto” da exposição foi a pandemia do Covid-19 e seus desdobramentos. O mundo parou naquele instante, e muita coisa mudou depois disso…

Metamorfose >> Conforme citei no título, a realidade automotiva sofreu uma incrível transformação. Digo isso, porque nem o mais astuto dentre os especialistas no assunto poderia prever que os fabricantes tradicionais fossem perder o protagonismo tecnológico, o bom gosto do design e o controle total do mercado. E isso já está acontecendo numa velocidade estonteante.

Melhoramentos >> O Salão de São Paulo retornou ao tradicional pavilhão do Anhembi, hoje um complexo de eventos muito maior, mais organizado e confortável. Ganhou ar-condicionado, dentre várias melhorias. Os estandes principais foram mais ou menos padronizados em tamanhos quase idênticos e as “ruas” foram alargadas, proporcionando mais conforto ao público visitante. Tudo feito no capricho pela Anfavea e a RX, empresa mantenedora do local.

Quase fora do jogo >> O ambiente modernizado, no entanto, está carente de marcas automotivas tradicionais. Várias delas, famosíssimas e, outrora, protagonistas no ramo, não estão participando dessa vez. Talvez seja por contenção de despesas ou, quem sabe, para se poupar de comparações qualitativas dos seus produtos (agora considerados ´comuns´ e até obsoletos) em relação aos impressionantes veículos de origem chinesa e, em segundo plano, aos carros sul-coreanos.

Estrelas perdem o brilho… >> As marcas alemãs – que sempre foram as mais admiradas globalmente pelo alto padrão construtivo – não deram as caras. BMW, Mercedes-Benz, Porsche e Audi, antes, destaques de qualquer evento desse tipo, também não estão participando.

Mundo real >> Com muita probabilidade, o Salão do Automóvel de São Paulo 2025 será um sucesso de público, além de gerar muitos negócios posteriores. A olhos nus, é gritante a superioridade automotiva asiática nesse momento: cores, formas, tipos, níveis de acabamento e várias possibilidades de propulsões eletrificadas, dão o tom sobre quem está no comando da situação. Os chineses conseguiram o que queriam.

Um pouco de história >> Vale recordar que a indústria automotiva chinesa nasceu praticamente no mesmo ano em que a brasileira surgiu. Por volta de 1950 eles iniciaram o sonho de um polo automotivo nacional, mas não tinham tradição no assunto e nem dominavam a tecnologia. A solução utilizada para ingressar na briga, foi copiar, copiar e copiar… Veículos norte-americanos, japoneses e alemães eram desmontados, estudados, medidos e refeitos sem dó, nem piedade. Não foram poucos os processos de marcas ocidentais contra os atuais gigantes da indústria chinesa de carros. Mas as cópias, os plágios descarados não conseguiram frear o aguerrido adversário asiático. Eles duplicaram com tanta perfeição, estudaram tão a fundo que aprenderam com absoluta exatidão; e agora se igualaram e, em vários níveis, superaram os antigos rivais.

Realidade ´nua e crua´ >> Um dos pontos de mudança que tem ocorrido (como questão de sobrevivência) no setor automotivo global é a necessidade de parcerias como uma diferença fundamental entre (tentar) seguir adiante ou fechar as portas. Daí os compartilhamentos de plataformas, peças e projetos. A Stellantis (conglomerado que reúne 14 marcas) é um exemplo perfeito dessa nova condição de mercado. Principalmente os seus veículos da Jeep, Fiat, Citroën e Peugeot interagem entre si, dividindo motores, caixas de câmbio, arquiteturas eletrônicas, dentre outros tantos detalhes. Isso diminui custos de produção. É uma coisa necessária, já que tentar caminhar sozinho nesse ramo hoje em dia é uma tarefa bastante árdua.

Quem está presente? >> Renault, Peugeot e Citroën (francesas), Honda e Toyota (ambas, japonesas), KIA e Hyundai (sul-coreanas), Jeep e RAM (norte-americanas) e GAC, CAOA Chery, CAOA Changan, Leapmotor, MG Motor, BYD, Geely, Omoda & Jaecoo, GWM, Avatr… essas últimas, todas chinesas. Um adendo: grupo CAOA começou como importador. Hoje possui enorme fábrica em parceria com a Chery. E a MG tem apenas origem inglesa, mas também virou marca chinesa.

Já a Weg (poderosa empresa brasileira multinacional de eletrificação) e a novata Lecar (que eu comento em detalhes mais abaixo), completam o conjunto das principais marcas automotivas presentes no tradicional Salão do Automóvel de São Paulo em sua 31ª edição.

Algumas novidades >> No intuito de conquistar o público e mais vendas, consequentemente, alguns lançamentos e outras atualizações estão presentes: Renault enfatiza o SUV médio Boreal como o seu principal destaque e também mostra o Koleos, um SUV híbrido ainda maior e mais luxuoso. A picape Niagara foi exibida ainda como um carro-conceito. Ambos (Koleos e Niagara) deverão ser lançadas em 2026.

Peugeot do Brasil trouxe o Inception Concept, um carro-conceito que exala modernidade e exibe os próximos traços de design dessa marca francesa para o futuro. A nova geração do 3008 também está exposta, assim como o hatch 100% elétrico E-208 GTi. Marca ´irmã´ da Peugeot, a Citroën enfatizou o bonito conceito C5 Aircross como seu maior destaque e também o Basalt Vision, que vem com mais esportividade, inclusive com suspensão um pouco mais baixa.

Honda: exibiu e disse que lançará por aqui no 2º semestre de 2026 o cupê esportivo Prelude.

Toyota: Yaris Cross e o hatch esportivo GR Yaris são os dois maiores destaques dessa outra marca japonesa no Salão de São Paulo.

KIA: picape Tasman, PV5 (van elétrica), novo Sportage, Stonic (atualizado), Sorento (em 4ª geração), EV3 (SUV elétrico) e o K4, que virá em carrocerias sedã e hatch.

Hyundai: Kona (híbrido), Ioniq 5 (SUV elétrico) e Ioniq 9 (SUV grande e elétrico) são as três principais atrações dessa marca sul coreana no Salão de São Paulo 2025.

Jeep: Avenger, novo SUV compacto é o maior destaque da marca norte-americana no Salão de São Paulo. Ele se posicionará abaixo do Renegade. Cherokee híbrido, Recon e Gladiator Convoy também receberam holofotes especiais.

RAM: as novas picapes 1500 RHO e a 3500 Dually Longhorn da RAM, são as maiores estrelas do estande, assim como a Dakota.

Omoda & Jaecoo: dentre híbridos e puramente elétricos, a marca chinesa mostra em SP o Omoda 5 e o 7, mas a estrela do local é o Jaecoo 8 que, com o sistema Super Hybrid System, oferece até 1.600 km de autonomia, segundo o fabricante.

GWM: mais uma marca chinesa de alto fluxo no mercado brasileiro. A GWM já tem 130 concessionárias aonde revende o Haval H6 e o H9 (7 lugares), o Tank 300, o Ora 03 e já tem, também, o Wey 07. Impressionante mesmo é o Tank 700, um SUV com altíssimo padrão de luxo e tecnologia.

Lecar, uma curiosa ousadia >> Imagine você que o empresário brasileiro Flávio Figueiredo Assis tem um sonho e disse que “não desistirá nunca” de realizá-lo. Ele enfatizou isso diante de uma plateia repleta de jornalistas antes da abertura oficial do Salão do Automóvel de São Paulo 2025. Flávio apresentou a sua marca automotiva Lecar; disse que construirá fábrica no Espírito Santo e apostará na tecnologia híbrida, enfatizando o etanol como o combustível tradicional a ser utilizado nos seus carros. O primeiro modelo será o “Tático”, um SUV com vasta capacidade off-road. Também estão previstos mais dois veículos da Lecar: a picape compacta Campo e o cupê 459. Será esse cidadão o novo João do Amaral Gurgel?

Frigir dos ovos… >> Se você quiser ver outros detalhes e informações do Salão do Automóvel de São Paulo 2025, acesse o nosso Instagram: @acelerandoporai.com.br

Agora vou finalizar. Os dois primeiros veículos chineses a chegarem ao Brasil, foram a picape compacta Chana e o hatch QQ da marca Chery. Com qualidade construtiva risível, ambos viraram piadas relacionadas a fracasso comercial. Isso aconteceu lá pelo final dos anos ´1990.

 

 

Hoje em dia, a piada passou para o outro lado do balcão… Por mais incrível que isso possa parecer, é verdade. Os chineses devem gargalhar ao ver grandes marcas ocidentais correndo atrás de parcerias – com os próprios chineses – a fim de encurtar o amadurecimento de processos tecnológicos, de buscar conhecimento sobre sistemas autônomos e, principalmente, entender as minúcias de um projeto de um automóvel 100% elétrico.

Quer um exemplo? O Jeep Compass híbrido plug-in 4xe foi ofertado no Brasil inicialmente por quase R$ 350 mil. Suas vendas foram um retumbante fracasso. Por R$ 100.000 a menos, a GWM e a BYD conseguem entregar SUVs híbridos excepcionais (com as mesmas características desse Jeep) e que vendem como água mineral em dias de calor. E o renovado Salão do Automóvel de São Paulo 2025 é uma vitrine ampla para entender esse tipo de situação. Basta ir até lá, olhar e comparar.

 

Os dois veículos que mais me impressionaram nessa 31ª edição do Salão de São Paulo foram o GWM Tank 700 e o Denza B5, dois SUVs de tamanho grande, fabricados com um esmero mais criterioso que um BMW Série 7, um Mercedes Classe G ou uma Range Rover Sport. Não exibem na grade logotipos famosos e não custam verdadeiras fortunas, mas, pode acreditar, oferecem um padrão de luxo e tecnologia que nada deve a qualquer veículo famoso desse mundão de Deus. Como fazia São Tomé: é ver pra crer… Vá ao Salão de São Paulo e divirta-se! (Fotos: Agência FBA / Instagram: @acelerandoporai.com.br)